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Eclesiastes 2

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Eu disse no meu coração: Irei, e engolfar-me-ei em delícias, e gozarei de tôda a casta de bens. Mas vi que também isto era vaidade. 2Reputei o riso por um êrro: E disse ao gôsto: Por que te enganas tu assim vâmente? 3Pensei. dentro no meu coração apartar do vinho a minha carne, a fim de passar o meu ânimo à sabedoria, e evitar a estultícia, até ver que coisa fôsse útil aos filhos dos homens: Em que ocupação têm êles necessidade de' se empregar debaixo do sol desfrutando o número dos dias de sua vida. 4Tracei as minhas obras com tôda a magnificência, edifiquei para mim casas, e plantei vinhas, 5fiz jardins, e pomares, e pus nêles árvores de tôda a espécie, 6e construí em minha utilidade depósitos de águas para regar o bosque de novo arvoredo, 7possuí servos e servas, e tive muita família: Também gados maiores, e grandes rebanhos de ovelhas mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém, 8amontoei para meu uso prata e ouro, e as riquezas dos reis e das províncias: Para me lisonjearem os ouvidos escolhi músicos, e cantores, e tudo o mais que faz as delícias dos filhos dos homens, taças, e jarros, de que se compõe uma copa para o serviço do vinho: 9E venci em riquezas a todos os que foram antes de mim em Jerusalém: Perseverou também comigo a sabedoria. 10E não neguei aos meus olhos coisa alguma de tôdas quantas êles desejaram: Nem proibi ao meu coração que gozasse de todo o prazer, e se deleitasse nas coisas que eu lhe tinha preparado: E assentei que seria esta a minha sorte, se eu desfrutasse o meu trabalho. 11E tendo voltado os olhos a tôdas as obras, que haviam feito as minhas mãos, e aos trabalhos, em que eu debalde tinha suado, vi em tudo vaidade e aflição do âàni-mo, e que nada havia permanente debaixo do sol. 12Passei à contemplação da sabedoria, e dos erros, e da estultícia ( (que é o homem, disse eu, para poder seguir ao rei seu criador?) 13E reconheci que a sabedoria levava tanta vantagem à estultícia quanto a luz difere das trevas. 14Os olhos do sábio estão na sua cabeça: O insensato anda em trevas: E aprendi que era uma mesma a morte dum e de outro. 15E disse dentro no meu coração: Se uma há de. ser a morte assim do insensato como a minha, de que me serve ter-me eu aplicado com maior desvêlo à sabedoria? E tendo conversado sôbre isto com a minha alma, adverti que também isto era vaidade. 16Porque a memória do sábio do mesmo modo que a do insensato não será para sempre, e os tempos futuros tudo sepultarão igualmente no esquecimento: Tanto morre o douto como o indouto. 17E por isso a minha vida se me tornou fastidiosa, vendo que tôda a sorte de males há debaixo do sol, e que tudo é vaidade e aflição de espírito. 18Em conseqüência do que detestei tôda a minha indústria, com que trabalhei diligentissimamente debaixo do sol, para haver de ter depois de mim um herdeiro, 19que ignoro se há de ser sábio ou insensato, mas êle será senhor dos meus trabalhos, em que eu suei e me afadiguei: E há coisa que seja tão vã? 20Por onde abri mão de tôdas estas coisas, e o meu coração renunciou tudo o que era dali por diante afadigar-se debaixo do sol. 21Porque depois dum ter trabalhado com sabedoria, e doutrina, e diligência, vem a deixar tudo o que adquiriu a um homem ocioso: E isto é também vaidade, e um grande mal. 22Porquanto que proveito tirará o homem de todo o seu trabalho, e da aflição de espírito, com que é atormentado debaixo do sol? 23Todos os seus dias são cheios de dores, e de amarguras, nem de noite descansa com o, pensamento: E acaso não é isto vaidade? 24Não é melhor comer e beber, e fazer bem à sua alma do fruto de seus trabalhos? Mas isto vem da mão de Deus. 25Quem se fartará, e nadará em delícias tanto como eu? 26Deus ao homem bom na sua presença deu sabedoria, e ciência, e alegria: Mas ao pecador deu aflição, e cuidado supérfluo, para que êle ajunte mais, e adquira bens sôbre bens, e os deixe a um homem, que lhe agradou a êle Deus: Mas ainda isto é vaidade, e um tormento de espírito bem inútil.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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