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Gênesis 31

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Jacó como ouviu estarem os filhos de Labão dizendo: Jacó tomou tudo o que era de nosso pai; e tendo-se enriquecido dos seus bens, está feito um homem grande. 2Como advertiu também, que Labão não olhava para êle com os mesmos olhos com que antes olhava: 3Enfim, como o mesmo Senhor lhe disse: Volta para a terra de teus pais, e para a tua parentela, e eu serei contigo: 4Mandou buscar, a Raquel, e a Lia; e quando elas eram chegadas ao campo, onde êle apascentava os seus rebanhos, disse-lhes: 5Eu reparo que vosso pai não olha para mim com os mesmos olhos, com que me olhava antes: Mas o Deus de meu pai tem-me assistido. 6E vós sabeis que eu me empreguei com tôdas as minhas forças no serviço de vosso pai. 7Ainda assim êle usou comigo de enganos, mudando dez vêzes o que me era devido por paga, ainda que Deus não lhe permitiu fazer-me mal. 8Quando êle disse, que os animais de diversas côres seriam para mim, tiveram as ovelhas cordeiros de diversas côres. E quando êle disse pelo contrário, que tudo o que nascesse branco seria para mim, tudo o que nasceu dos rebanhos foi branco. 9Assim tirou Deus os bens de vosso pai para.mos dar a mim. 10Porque chegado o tempo que as ovelhas haviam de conceber, levantei eu os olhos, e vi em sonhos que os machos, que cobriam as fêmeas, eram malhados, mesclados, e de diversas côres. 11E o anjo de Deus me disse em sonhos: Jacó. A que eu respondi: Aqui estou: 12E êle prosseguiu: Levanta os teus olhos, e vê que todos os machos, que cobrem as fêmeas, são malhados, mesclados, e de côres diferentes. Porque eu vi, tudo o que te fêz Labão. 13Eu sou o Deus, que te apareceu em Betei, onde tu ungiste a pedra, e onde me fizeste um voto. Sai pois muito depressa desta terra, e torna para o país do teu nascimento. 14Raquel, e Lia lhe responderam: Acaso resta-nos a nós alguma coisa dos bens, e da herança, que nós devemos ter na casa de nosso pai? 15Não nos tratou êle pelo contrário como umás estranhas? Não nos vendeu êle, e não nos comeu o que nos era devido? 16Mas Deus tomou as riquezas de nosso pai, e no-las entregou a nós, e a nossos filhos. Assim faze o que Deus te mandou. 17Fêz pois Jacó montar logo sôbre uns camelos suas mulheres, e seus. filhos: 18e levando consigo tudo o que tinha, os seus rebanhos, e geralmente tudo o que tinha adquirido em Mesopotâmia, pôs-se a caminho, para ir ter com Isaac, seu pai, na terra de Canaã. 19Ora tendo Labão ido naquele tempo fazer a tosquia das suas ovelhas, furtou Raquel os ídolos de seu pai. 20E como Jacó tinha resolvido retirar-se a tôda a pressa não quis descobrir o seu intento a seu sogro. 21Tendo-se êle pois ido com tudo o que lhe pertencia, quando passado já o rio caminhava para a banda do monte de Galaad, 22foi Labão avisado ao terceiro dia, como Jacó ia fugindo. 23E no mesmo ponto tomados consigo seus irmãos, foi em seu alcance sete dias, e o apanhou no monte de Galaad. 24Mas Deus lhe apareceu em sonhos, e lhe disse: Guârda-te, não digas a Jacó coisa, que o ofenda. 25Tinha Jacó estendido já a sua tenda no monte de Galaad quando Labão com seus irmãos, tendo-o alcançado, pôs ali também a sua. 26E êle disse a Jacó: Por que o fizeste tu assim, levando-me minhas filhas, sem me dizeres nada, como se elas fossem algumas prisioneiras de guerra? 27Por que tomaste tu a resolução de fugires, sem que eu o soubesse? E por que mo não disseste tu, para eu te conduzir com cânticos de alegria ao som de tambores, e de cítaras? 28Não me deixaste nem sequer beijar meus filhos, e minhas filhas. Nisto obraste tu como néscio. E agora 29poderia eu muito bem tornar-te mal por mal: porém o Deus de teu pai me disse ontem: Guarda-te, não digas a Jacó coisa que o ofenda. 30Que tu desejasses tornar para os teus; que tivesses saudades de ires ver a casa de teu pai, muito embora. Mas por que me furtaste tu os meus deuses? 31Jacó lhe respondeu: O que fêz que eu partisse, sem te dizer nada, foi que tive mêdo não me quisesses' tu tirar tuas filhas. 32Mas no tocante ao furto, de que me argúis, eu consinto que todo aquêle, de quem se achar que tirou os teus deuses, seja castigado com pena de morte em presença de nossos irmãos. Busca; e tudo o que achares teu, leva-o. Quando Jacó isto dizia, ignorava êle que Raquel tinha furtado aquêles ídolos. 33Labão pois tendo entrado na tenda de Jacó, na de Lia, e na das duas escravas, não achou o que buscava. Depois entrou na tenda de Raquel: 34Mas ela tendo escondido muito depressa os ídolos debaixo da enxerga dum camelo, assentou-se em cima: e quando êle andava esquadrinhando tôda a tenda, sem achar nada, disse-lhe: 35Não se enfade meu senhor, por eu me não poder levantar diante dêle: porque presentemente me acho com a indisposição, que costuma vir às mulheres. Dêste modo tornou Raquel inútil aquela busca, que Labão fizera com tanto sentido. 36Mas Jacó todo irado disse em tom de estranheza a Labão: Que falta cometi eu, e em que te ofendi, para tu vires correndo atrás de mim com tanto calor, 37e para esquadrinhares e remexeres todos os meus móveis? Que achaste tu aqui de tôdas as coisas, que havia em tua casa? Põe-nas diante de meus irmãos, e dos teus, e-sejam êles juízes entre mim, e ti. 38Acaso é isto, porque eu passei vinte anos contigo? As tuas ovelhas, e as tuas cabras não foram estéreis: eu não comi os carneiros do teu rebanho: 39Nem eu te mostrei coisa alguma, que tivessem levado as feras: eu tomava sôbre mim tudo o que se tinha perdido, e tu me tomavas conta disso, e pedias de mim quanto se furtava. 40Eu andava de dia, e de noite, ora queimado do calor, ora trespassado do frio; e o sono fugia dos meus olhos. 41Dêste modo te servi eu em tua casa vinte anos, catorze pelas tuas filhas, e seis pelos rebanhos: tu mudaste também dez vêzes o que eu devia haver por paga. 42Se o Deus de meu pai Abraão, e o Deus, que Isaac teme, me não tivesse assistido, talvez que tu me tivesses recambiado nu. Mas Deus olhou para a minha aflição, e para o trabalho das minhas mãos: e êle te intimidou esta noite com as suas ameaças. 43Labão lhè respondeu: As minhas filhas, e os meus filhos, os teus rebanhos, é tudo o que tu vês, tudo é meu. Que posso eu fazer a minhas filhas, e a meus. netos? 44Vem tu pois, e façamos uma aliança, que sirva de testemunho entre mim e ti. 45Tomou-Jacó então uma pedra, e tendo-a levantado por padrão, 46disse a seus irmãos. Trazei cá pedras. E como tivessem amontoado muitas juntas, fizeram delas um cabeço, e comeram em cima dêle. 47Labão o nomeou o Cabeço da Testemunha; e Jacó o Montão do Testemunho, cada um segundo a propriedade da sua língua. 48E Labão disse: Êste cabeço será hoje testemunha entre mim, e ti (por isso êste lugar se chamou Galaad, isto é, o cabeço da testemunha). 49O Senhor nos veja, e nos julgue, quando nós nos tivermos apartado um do outro. 50Se tu maltratares minhas filhas, e se tomares ainda outras mulheres afora elas, nenhum é testemunha das nossas palavras, senão Deus, que está presente, e que nos vê. 51Disse mais Labão a Jacó: Êste cabeço, e esta pedra, que eu levantei entre mim, e ti, 52ser-nos-ão de testemunha. Êste cabeço, digo, e esta pedra darão testemunho se eu passo para lá, indo para ti; ou se tu passas para cá, com intento de me fazeres mal, 53O Deus de Abraão, e o Deus de Nacor, e o Deus do pai dêles seja nosso juiz. Jurou pois Jacó pelo Deus, que Isaac seu pai temia. 54E depois de ter imolado suas vítimas no monte, convidou seus irmãos a comer. E tendo comido, deixaram-se ficar ali. 55Mas Labão levantando-se antes de ser dia, beijou seus filhos, e suas filhas, abençoou-os e tornou-se para sua casa.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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