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Jó 19

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1E respondendo Jó, disse: 2Até quando afligireis a minha alma, e me atormentareis com os vossos discursos? 3Eis-aí são já dez vezes que vós me quereis confundir, e não vos envergonhais de me oprimir. 4Embora haja eu errado, o meu êrro ficará comigo. 5Porém vós levantais-vos contra mim, e me argúis com as minhas calamidades. 6Entendei sequer agora que Deus não é por um juízo de justiça que me afligiu, e me feriu com os seus açoites. 7Clamarei pois padecendo violência, e ninguém me ouvirá: Bradarei, e não há quem faça justiça. 8Por tôdas as partes fechou o meu caminho, e não posso passar, e no meu caminho pôs trevas. 9Despojou-me da minha glória, e tirou-me a coroa da cabeça. 10Destruiu-me por todos os lados, e pereço, e como à árvore arrancada me tirou a minha esperança. 11O seu furor se acendeu contra mim, e assim me tratou como a seu inimigo. 12Mancomunados vieram os seus salteadores, e fizeram para si caminho sôbre mim, e cercaram em roda a minha casa. 13Pôs longe de mim a meus irmãos, e os meus conhecidos como estranhos se apartaram de mim. 14Os meus propínquos me desampararam: E os que me conheciam, esqueceram-se de mim. 15Os que moravam em minha casa, e as mesmas minhas servas me reputaram como um estranho, e fui como um peregrino nos seus olhos. 16Chamei ao meu servo e êle não me respondeu, e por minha própria bôca eu o rogava. 17Minha mulher teve horror do meu bafo, e tinha eu que rogar aos filhos das minhas entranhas. 18Até os fátuos me desprezavam, e retirando-me deles, detraíam de mim. 19Os que noutro tempo eram meus conselheiros me tiveram em execração: E aquele a quem eu mais amava, me voltou as costas. 20À minha pele, consumidas as carnes, se pegaram os meus ossos, e só me restam os lábios ao redor dos meus dentes. 21Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, sequer vós, que sois meus amigos, porque a mão do Senhor me feriu. 22Por que me perseguis, como Deus, e vos fartais das minhas carnes? 23Quem me dera que as minhas razões fôssem escritas? Quem me dera que se imprimissem em um livro, 24com ponteiro de ferro, ou em lâmina de chumbo, ou que com cinzel se gravassem em pederneira? 25Porque eu sei que o meu remidor vive, e que eu no derradeiro dia surgirei da terra: 26E serei novamente revestido da minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus. 27A quem eu mesmo hei-de ver, é meus olhos hão de contemplar, e não outro: Esta minha esperança está depositada no meu peito. 28Porque dizeis pois agora: Persigamo-lo, e achemos raiz de palavras contra êle? 29Fugi pois de diante da espada, porque há espada vingadoura das iniquidades: E sabei que há juízo.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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