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Juízes 11

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Havia por êste tempo um homem de Galaad, chamado Jefté, mui alentado e guerreiro, que era filho de Galaad, e duma meretriz. 2Galaad porém era casado, e teve filhos de sua mulher: Os quais, depois que cresceram, lançaram fora a Jefté, dizendo: Tu não podes ser herdeiro na casa de nosso pai, visto teres nascido doutra mãe. 3Jefté pois fugindo e retirando-se dêles habitou no país de Tob: e alguns homens miseráveis, e que viviam de latrocínios, se agregaram a êle, e o seguiam como a seu capitão. 4A êste mesmo tempo pelejavam os filhos de Amon contra Israel. 5Como êstes os apertassem fortemente foram os anciãos de Galaad a buscar Jefté do país de Tob, para auxílio seu: 6E lhe disseram: Vem, e -sê o nosso príncipe para combateres contra os filhos de Amon. 7Êle lhes respondeu: Não sois vós aquêles que me aborrecestes, e que me lançastes fora da casa de meu pai, e agora viestes ter comigo constrangidos da necessidade? 8E os príncipes de Galaad disseram a Jefté: Pois por esta causa viemos nós agora buscar-te, para que venhas conosco, e pelejes contra os filhos de Amon, e sejas o chefe de todos os que habitam em Galaad. 9Jefté lhes disse também: Se sinceramente viestes buscar-me para que peleje em defensa vossa contra os. filhos de Amon, e o Senhor mos entregar às mãos, serei eu o vosso príncipe? 10Êles lhe responderam: O Senhor que nos ouve, seja o medianeiro e a testemunha de que cumpriremos as nossas promessas. 11Foi pois Jefté com os príncipes de Galaad, e todo o povo o elegeu por seu príncipe. Jefté fêz tôdas as suas protestações na presença do Senhor em Masfa. 12E enviou mensageiros ao rei dos filhos de-Amon, que lhe dissessem da sua parte: Que tens tu comigo, que vieste contra mim para destruíres a minha terra? 13Êle lhes respondeu: E” porque Israel vindo do Egito, me tomou a minha terra, desde os confins de Arnon até a Jaboc e até o Jordão: agora pois restitui-ma em boa paz. 14Tornou Jefté a enviar os mesmos, e lhes mandou que dissessem ao rei de Amon: 15Eis-aqui o que te manda dizer Jefté: Israel não tomou a terra de Moab, nem a terra dos filhos de Amon: 16Mas quando saiu do Egito andou pelo deserto até o mar Vermelho, e chegou a Cades. 17E enviou mensageiros ao rei de Edom, dizendo-lhe: Deixa-nos passar pela tua terra. E êle não lho quis consentir. Mandaram também ao rei de Moab, o qual lhes não quis dar passagem. Deteve-se pois em Cades, 18e rodeou por um lado a terra de Edom, e a terra de Moab: e veio pelo lado oriental da terra de Moab, e se acampou da outra banda de Arnon: nem quis entrar nos termos de Moab: Porque Arnon é a fronteira da terra de Moab. 19Enviou pois Israel mensageiros a Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon, e disseram-lhe: Deixa-nos passar pelas tuas terras até ao rio. 20E desprezando êle também a petição de Israel, não o deixou passar pelos seus têrmos: mas antes tendo ajuntado uma infinita multidão, saiu a encontrar-se contra êle em Jasa, e fortemente lhe resistia. 21Porém o Senhor o entregou nas mãos de Israel com todo o seu exército, que o desbaratou, e se fêz senhor de tôdas as terras dos amorreus, que habitavam naquela região, 22e de todos os seus limites desde Arnon até Jab«e, e desde o deserto até o Jordão. 23Assim o senhor Deus de Israel destruiu aos amorreus, pelejando contra êles o seu povo de Israel: e agora pretendes tu possuir a sua terra? 24Porventura não te é devido por direito tudo o que possui o teu deus Camos? Logo também a nós pertencerá o que o Senhor nosso Deus alcançou com as suas vitórias: 25Se não é que tu sejas de melhor condição do que Balac filho de Sefor, rei de Moab: Ou que possas mostrar que êle teve contendas com Israel e lhe fêz guerra, 26enquanto êste habitou em Hesebon e suas aldeias, em Aroer, e em seus lugarejos, ou em tôdas as cidades vizinhas ao Jordão, por espaço de trezentos anos. Por que razão em um tão largo tempo não fizestes vós diligência alguma por recobrardes isto? 27Não sou eu logo o que te faço injúria a ti, mas tu és o que ma fazes a mim, declarando-me uma guerra injusta. O Senhor, que é Árbitro. decida hoje isto entre Israel, e os filhos de Amon. 28Porém o rei dos filhos de Amon não quis estar pelo que Jefté lhe mandara dizer por os seus mensageiros. 29Entrou pois o espírito do Senhor em Jefté, e dando volta por Galaad, e pelo país de Manassés, e por Masfa de Galaad, e passando dali até os filhos de Amon, 30fêz um voto ao Senhor, dizendo: Se tu me entregares nas mãos os filhos de Amon, 31a primeira pessoa, seja ela qual fôr, que sair da porta de minha casa, e se encontrar comigo, quando eu tornar vitorioso dos filhos de Amon, eu a oferecerei ao Senhor em holocausto. 32E passou Jefté às terras dos filhos de Amon a pelejar contra êles: aos quais o Senhor entregou nas suai mãos. 33E Jefté fêz uma grande mortandade em vinte cidades, desde Aroer até chegar a Menit, e até Abel, que está plantada de vinhas: e foram humilhados os filhos de Amon pelos filhos de Israel. 34Mas voltando Jefté para sua casa em Masfa. eis que saiu a recebê-lo dançando ao som de tambores sua filha única: porque não tinha outros filhos. 35E quando a viu, rasgou os seus vestidos, e disse: Desgraçado de mim, filha minha, que me enganaste, e te enganaste também a ti: eu abri a minha bôca falando ao Senhor, e não poderei fazer outra coisa. 36Ela lhe respondeu: Meu pai, se deste a tua palavra ao Senhor, dispõe de mim o que prometeste, pois que te concedeu a vingança e a vitória de teus inimigos. 37E disse a seu pai: Concede-me somente o que te peço: Deixa-me andar pelos montes dois meses, e que chore a minha virgindade com as minhas companheiras. 38Jefté lhe respondeu: Pois vai. E deixou-a ir por dois meses. E tendo ido com as suas companheiras e amigas, chorava a sua virgindade nos montes. 39E passados dois meses, tornou ela para seu pai: e êle cumpriu o que tinha votado, com a que não tinha conhecido varão. E daqui veio o costume de Israel, e se tem conservado o uso: 40De que uma vez cada ano se ajuntam as filhas de Israel, para chorarem a filha de Jefté de Galaad por quatro dias.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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