Juízes 19
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Houve um certo homem levita, que habitava a um lado do monte de Efraim, o qual se tinha casado com uma mulher de Belém de Judá: 2Esta o deixou, e tornou para Belém para casa de seu pai, e ficou morando com êle quatro meses. 3E seu marido a foi buscar, querendo reconciliar-se com ela, acariciá-la, e torná-la a levar consigo, trazendo para isto um criado e dois jumentos: a mulher o acolheu, e o introduziu em casa de seu pai. O seu sogro, quando soube isto e o viu, saiu a recebê-lo alegre, 4e o abraçou. E o genro se deteve três dias em casa do sogro, comendo e bebendo com êle familiarmente. 5Ao quarto dia porém levantando-se o levita antes de amanhecer, quis partir. O sogro o deteve, e lhe disse: Come primeiro um bocado de pão, e conforta o estômago, e depois partirás. 6E assentaram-se ambos juntos, e comeram e beberam. Depois disse o pai da moça a seu genro: Peço-te que te deixes ficar aqui ainda hoje, e nos divirtamos de companhia. 7Mas êle levantando-se, se pôs em ação de querer partir. E todavia o sogro com as suas instâncias o deteve, ve fêz ficar, consigo. 8Ao outro dia pela manhã preparava-se o levita para partir. E o sogro lhe tornou a dizer: Peço-te que comas primeiro um bocado, e cobrando forças, até que seja mais dia, depois partirás. Comeram pois juntamente. 9E o mancebo se levantou para partir com sua. mulher e com o criado. Mas o sogro lhe disse outra vez: Olha que o dia está mui perto do ocaso, e que chega a. noite: Fica comigo ainda hoje, e leva em alegria o dia,. e amanhã partirás para ires para tua casa. 10Não quis o genro estar por êstes rogos: Mas: partiu logo, e chegou à vista de Jebus, que por outro nome se chamava Jerusalém, levando consigo dois jumentos carregados, e a sua mulher. 11E já estavam perto de Jebus, e o dia se mudava em noite: e disse o criado a seu amo: Tomemos, te peço, o caminho da cidade dos jebuseus, e fiquemos nela. 12O amo lhe respondeu: Eu não entrarei numa cidade de gente estrangeira, qúe não é dos filhos de Israel, mas passarei até Gabaa: 13E depois que lá chegarmos, descansaremos nela, ou ao menos na cidade de Rama. 14Deixaram pois a Jebus, e continuando o seu caminho, se lhes pôs o sol ao pé de Gabaa, que é da tribo de Benjamim: 15E entraram nela, para ali pousarem. E entrados que foram, se assentaram na praça da cidade, e não houve sequer um que os quisesse hospedar. 16E eis que apareceu um homem velho, que voltava do campo e do seu trabalho ao anoitecer, o qual também era do monte de Efraim, e habitava como forasteiro em Gabaa. Porque os homens desta região eram filhos de Jemini. 17E levantando os olhos, viu o velho ao levita assentado na praça da cidade com a sua pequena bagagem: e lhe disse: De onde vens tu? e para onde vais? 18O qual lhe respondeu: Nós partimos de Belém de Judá, e vamos para nossa casa, que é ao lado do monte de Efraim, de onde tínhamos ido a Belém: e agora vamos à casa de Deus, e ninguém nos quer hospedar na sua morada, 19tendo nós palha e feno para sustento dos jumentos, e pão e vinho para mim e para esta tua serva, e para o criado, que está comigo: De nenhuma coisa necessitamos mais que de pousada. 20O velho lhe respondeu: A paz seja contigo, eu te darei tudo o que fôr necessário: Rogo-te somente que não fiques na praça. 21E assim os introduziu em sua casa, e deu de comer aos jumentos: e depois que lavaram os seus pés, os fêz assentar à mesa. 22Ceando êles, e refazendo os seus corpos da fadiga do caminho com a comida e bebida, chegaram uns homens daquela cidade, filhos de Belial (isto é, sem jugo), e cercando a casa do velho, começaram a bater à porta, gritando ao dono da casa, e dizendo: Deita cá para fora êsse homem, que entrou para tua casa, para abusarmos dêle. 23Ê o velho saiu fora a ter com êles, e disse: Não queirais, irmãos, não queirais cometer semelhante maldade; porque eu hospedei êste homem em minha casa, e deixai-vos desta loucura: 24Eu tenho uma filha donzela, e êste homem tem sua mulher: Eu vo-las tirarei cá para fora, para vos servirdes delas, e satisfazerdes o vosso apetite: somente vos peço, que não obreis com o homem tal maldade contra a natureza. 25Não queriam os homens estar pelo que êle lhes dizia: o que vendo o levita, lhes trouxe sua mulher e a entregou aos seus ultrajes: e depois de terem abusado dela tôda a noite a largaram ao amanhecer. 26Mas a mulher, tanto que amanheceu, veio à porta da casa, onde estava seu senhor, e caiu ali. 27Quando já era dia, levantou-se o marido, e abriu a porta para continuar o seu caminho: e eis-que. sua mulher estava estirada no limiar da porta com as mãos estendidas. 28Cuidando êle que ela estava dormindo, disse-lhe:. Levanta-te, e vamo-nos. Não respondendo ela nada, conhecendo que estava morta, pegou nela, e pô-la sôbre o jumento, e voltou para sua casa. 29Tanto que aí chegou, tomou um cutelo, e, dividindo o cadáver de sua mulher com os seus ossos em doze partes, pedaço a pedaço, os enviou a todos os limites de Israel. 30E quando tal viram, exclamaram: Nunca tal coisa se viu em Israel, desde o dia que nossos pais saíram do Egito até hoje: Dizei o que sentis, e resolvei de comum acordo o que se deve fazer neste caso.