Tobias 2
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Depois disto porém, como fôsse chegado um dia de festa do Senhor, e se fizesse um grande banquete em casa de Tobias, 2disse a seu filho: Vai e traze aqui alguns da nossa tribo, que sejam tementes a Deus, para comerem conosco. 3E tendo ido, na volta noticia ao pai que um dos filhos de Israel jazia degolado na rua. E logo, levantando-se do seu assento, deixando o jantar, em jejum chegou ao pé do cadáver: 4E tomando-o, o levou secretamente para sua casa, a fim de que ao pôr do sol, o sepultasse a bom recato. 5E tendo escondido o cadáver, comeu o pão com lágrimas e tremor, 6recordando-se do que o Senhor dissera pelo profeta Amós: Os vossos dias de festa converter-se-ão em lamentação e pranto. 7Depois que foi sol pôsto, saiu, e sepultou-o. 8Mas todos os seus próximos o arguiam, dizendo: Já por este motivo te mandaram matar, e com custo escapaste da sentença de morte, e novamente tu sepultas os mortos? 9Mas Tobias, temendo mais a Deus do que ao rei, levava os corpos dos que tinham sido mortos, e escon-dia-os em sua casa e sepultava-os no meio da noite. 10Sucedeu um dia que cansado de enterrar mortos vindo para sua casa, e deitando-se ao pé duma parede, e adormecendo, 11quando-êle dormia lhe caiu dum ninho de andorinhas um pouco de lixo quente sôbre seus olhos e ficou cego. 12Permitiu pois Deus que lhe acontecesse esta prova, para que a sua paciência assim servisse de exemplo aos vindouros, como a do Santo Jó. 13Porque tendo sempre temido a Deus desde sua infância, e guardado os seus mandamentos, não se entristeceu contra- Deus, por lhe ter acontecido o trabalho da cegueira, 14mas permaneceu imóvel no temor de Deus, dando graças a Deus todos os dias da sua vida. 15Porquanto bem como os reis insultavam ao bem-aventurado Jó, assim os parentes, e cognatos de Tobias escarneciam do seu modo de vida, dizendo: 16Onde está a tua esperança, pela qual tu fazias esmolas, e sepultavas os mortos? 17Mas Tobias os repreendia, dizendo: Não faleis assim: 18Porque nós somos filhos dos Santos, e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que dêle nunca mudam a sua fé. 19E Ana sua mulher ia todos os dias pôr-se ao tear, e do trabalho de suas mãos trazia, o que podia: ganhar para viver. 20Sucedeu pois que tendo recebido um cabrito o trouxe para casa: 21E seu marido, tendo-o ouvido dar balidos, disse: Vêde, não seja furtado, restitui-o a seus donos, porque a nós não nos é lícito comer, nem tocar coisa alguma furtada. 22A isto lhe respondeu sua mulher com ira: Bem se vê, como as tuas esperanças são vãs, e agora se fizeram ver as tuas esmolas. 23E com estas, e outras semelhantes palavras o insultava.