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2 Macabeus 14

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Mas passado o espaço de três anos soube Judas, e os que com êle estavam, que Demétrio, filho de Seleuco, tinha vindo pelo pôrto de Trípoli com um poderoso exército, e navios, para se apoderar dos postos vantajosos. 2E que se tinha feito senhor de diversas províncias, apesar de Antíoco, e do seu general Lísias. 3Ora um certo Alcimo, que tinha sido sumo sacerdote, e que voluntariamente se tinha manchado no tempo da mistura, considerando que êle de nenhum modo podia ter melhoramento de estado, nem acesso ao altar, 4veio ter com o rei Demétrio no ano cento e cinquenta, oferecendo-lhe uma coroa de ouro e uma palma, além disto também uns ramos, que pareciam ser do templo. E com efeito aquêle dia não lhe disse nada. 5Mas tendo achado ocasião oportuna de executar o seu louco intento, chamado por Demétrio ao conselho, e perguntado em que fundamentos e conselhos se estribavam os judeus, 6respondeu: Aquêles de entre os judeus, que se chamam Assideus, cujo capitão é Judas Macabeu, fomen-tam guerras, e excitam sedições, e não sofrem que o reino esteja quieto. 7Porque até eu mesmo despojado da glória que tinha recebido de meus pais (quero dizer do sumo pon- - tificado) vim ter aqui. 8Primeiramente para guardar por certo a fidelidade que devo ao rei, no tocante aos seus interêsses, e segundariamente para negociar também as conveniên-cias de meus compatriotas: Porque tôda a nossa nação está vexada não de mui leves opressões pela maldade destas pessoas. 9Assim que, eu te rogo, ó rei, que informando-te miudamente de tôdas estas coisas, olhes pelos interêsses tanto da nossa terra, como da nossa nação, conforme a tua bondade por todos já tão conhecida. 10Porque enquanto viver Judas, é impossível que haja paz no estado. 11E depois que Alcino assim falou, os outros amigos, que mostravam uma declarada inimizade contra Judas, inflamaram ainda mais contra êle a Demétrio. 12Enviou logo Demétrio por general à Judéia a Nicanor, intendente dos elefantes. 13Dando-lhe ordem que tomasse com efeito às mãos vivo ao mesmo Judas: E que dissipasse todos os que estavam com êle, e que constituísse a Alcimo sumo sacerdote do grande templo. 14Então os pagãos que tinham fugido da Judéia por temor de Judas, vieram em magotes unir-se a Nicanor, havendo que as misérias, e perdas dos judeus serviam de prosperidade para os seus negócios. 15Assim que tendo os judeus ouvido a chegada de Nicanor, e a união dos gentios com êle, cobertas suas cabeças de pó, faziam as suas rogativas àquele que tinha fundado o seu povo, para o conservar eternamente, e que protegia com evidentes prodígios a sua herança. 16E logo depois partiram êles do lugar onde estavam, por ordem do seu general, e foram pôr-se ao pé do castelo de Dessau. 17Ora Simão, irmão de Judas, tinha principiado a batalha contra Nicanor: Mas foi aterrado com a im-prevista chegada dos inimigos. 18Todavia Nicanor ouvindo falar do esfôrço da gente de Judas, e da grandeza de ânimo com que êles pelejavam pela pátria, temia expor-se a um combate san-guinolento. 19Portanto enviou diante a Possidônio, e a Teodó-cio, e a Matias, para que presentassem, e recebessem proposições de paz. 20E como por largo tempo sc tomasse deliberação a respeito destas ocorrências e tivesse o mesmo general exposto a causa a todo o exército, foram todos unifor-inemente de parecer que se aceitasse a concórdia. 21Pelo que ajustaram os dois generais um dia certo, em que conferenciassem entre si secretamente sôbre o ponto: E para cada um se assentar se tiraram cadeiras: E com efeito lhes foram postas. 22Entretanto Judas tinha mandado que estivesse gente armada em lugares oportunos, por não suceder que lhes viesse de repente algum mal dos inimigos: E êles tiveram uma conferência tendente ao bom êxito do seu negócio. 23Iicou pois Nicanor em Jerusalém, e não obrou ali nada contra a eqitidade, e despediu a multidão de tropas, que se lhe tinham ajuntado. 24E êle amava sempre a Judas com um amor sincero, e sentia particular inclinação para a sua pessoa. 25Até lhe pediu que se casasse, e que visse se tinha filhos. Judas se casou: Teve descanso e êles viviam familiarmente um com outro. 26Mas Alcimo, vendo a amizade, e boa harmonia que havia entre êles, foi ter com Demétrio, e lhe' disse. que Nicanor favorecia os interêsses dos seus inimigos, e que tinha destinado por seu sucessor dele Alcimo a Judas que aspirava ao reino. 27Então exasperado o rei, e todo irritado com as mui detestáveis calúnias que ouvia da bôca dêste mau homem, escreveu a Nicanor, dizendo-lhe que levava por certo muito a mal que êle tivesse feito amizade com Macabeu, que todavia lhe ordenava que o mais depressa que pudesse ser, lho remetesse prêso a Antióquia. 28Nicanor, recebida esta nova, ficou todo consternado, e custava-lhe muito haver de violar o concêrto que tinha feito com Macabeu, não tendo recebido agravo algum da sua pessoa. 29Mas porque não podia resistir ao rei, buscava ocasião favorável para executar a ordem recebida. 30Entretanto Macabeu, vendo que Nicanor o tratava mais desabridamente que de ordinário, e que lhe mostrava, quando se encontravam, um aspecto mais carrancudo do que costumava, refletindo que esta aus-teridade não podia proceder de boa causa, convocados alguns poucos dos seus, furtou-se a Nicanor. 31Quando Nicanor veio a conhecer que êle tinha sido prevenido por Judas com valente resolução, foi ao augustíssimo e santíssimo templo: E oferecendo os sacerdotes as vítimas ordinárias, lhes mandou que lhe entregassem nas mãos a Macabeu: 32Mas afirmando-lhe êles com juramento, que não sabiam onde estava aquêle que buscava, estendendo a mão para o templo, 33jurou, dizendo: Se vós me. não entregardes Judas debaixo de prisão, eu arrazarei êste templo de Deus, e derribarei o altar, e consagrarei êste templo ao pai Baco. 34E ditas estas coisas, foi-se. Os sacerdotes porém levantando as mãos ao céu, invocavam aquêle que sempre se tinha declarado protetor da sua nação, dizendo assim: 35Senhor de todo o universo, que de nada necessitas, tu quiseste que se edificasse um templo da tua habitação no meio de nós. 36Agora pois, ó santo dos santos, ó Senhor de tôdas as coisas, isenta para sempre de profanação esta casa, que há pouco foi purificada. 37Então foi acusado diante de Nicanor um dos anciãos de Jerusalém, chamado Razias, homem zeloso pela cidade, e que estava em grande reputação: O qual era chamado o pai dos judeus, pelo afeto que lhes tinha. 38Este já de tempos muito atrasados fazia uma vida puríssima no judaismo, e estava pronto para entregar o seu corpo e a sua vida, por perseverar assim até o fim. 39Querendo pois Nicanor mostrar o ódio que tinha dos judeus, mandou quinhentos soldados a prendê-lo: 40Porque tinha para si, que se seduzisse a êste homem, haveria êle de causar um grandíssimo estrago aos judeus. 41A tempo pois que estas tropas forcejavam por entrar na sua casa, e arrombar a porta, e pôr-lhe fogo, como êle se viu a ponto de ser prêso, deu em si um golpe com a espada. 42Escolhendo antes morrer nobremente do que ver-se sujeito a pecadores, e padecer ultrajes indigaos do seu nascimento. 43Mas como pela pressa com que o deu, não fôra mortal o golpe, e entrando tôda aquela soldadesca de tropel em sua casa correndo com extraordinária resolução ao muro, se precipitou êle mesmo animosamente de alto a baixo sôbre o povo: 44Tendo-se todos afastado com presteza, para não dar em cima dêles a queda, caiu no chão, dando primeiro com o meio da cerviz: 45E como ainda respirasse, tendo cobrado alentos se pôs em pé: E não obstante correr-lhe o sangue em largos rios, e estando muito maltratado com as feridas, atravessou numa carreira pelo meio do povo: 46E pôsto sôbre um escarpado penedo, e tendo já, perdido quase todo o sangue, tirando de corpo para fora as suas entranhas, com ambas as mãos as lançou sôbre o povo, invocando o Senhor da vida e da alma, para que lhas tornasse a dar algum dia: E assim acabou a vida.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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