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2 Macabeus 3

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Gozando pois a cidade santa de uma perfeita paz, e guardando-se ainda êxatissimamente as leis, por causa da piedade do pontífice Onias, e do ódio que êle tinha no coração contra todo o mal, 2nascia daqui, que também os mesmos reis, e príncipes reputavam o santo lugar por digno de suma veneração, e enriqueciam o templo com grandissimos donativos: 3De sorte que Seleuco, rei da Ásia, subministrava das suas rendas tôda a despesa que pertencia ao ministério dos sacrifícios. 4Porém Simão da tribo de Benjamim, que estava constituído prepósito do templo, trabalhava por fazer alguma má obra na cidade, não obstante a resistência que achava no. príncipe dos sacerdotes. 5E vendo que não podia vencer a Onias, foi ter com Apolônio, filho de Tarséias, que naquele tempo era governador da Celesíria e da Fenícia. 6E declarou-lhe que o erário de Jerusalém estava cheio de infinitas somas de dinheiro, e que nêle se achavam imensas riquezas do comum, que não pertenciam ao ramo dos sacrifícios: E que se poderia descobrir meio para que todo êste cabedal viesse a cair em poder do rei. 7E tendo Apolônio avisado o rei desta grande soma de dinheiro, que lhe tinha sido delatado, o rei tendo feito chamar a Heliodoro, que era seu primeiro ministro, o enviou com ordem de fazer transportar o sobredito dinheiro. 8E pôs-se logo Heliodoro a caminho, e isto com o pretexto de quem tinha de visitar as cidades da Celesíria e da Fenícia, mas na realidade levando em propósito executar a intenção do rei. 9E chegado que foi a Jerusalém, e recebido na cidade com grande benignidade pelo sumo sacerdote, declarou-lhe Heliodoro o aviso que se tinha dado ao rei sobre êste dinheiro: E manifestou-lhe que esta era a verdadeira causa da sua vinda: Perguntou-lhe, se era verdade o que se tinha dito. 10Então lhe representou o sumo sacerdote, que êste dinheiro estava em depósito, e que era subsistência de viúvas, e de órfãos: 11E que no monte dêste dinheiro, que o ímpio Simão tinha denunciado, havia uma parte que pertencia a Hircano Tobias, varão muito eminente: E que tôda esta soma vinha a consistir em quatrocentos talentos de prata, e duzentos de ouro: 12E que era uma coisa absolutamente impossível, enganar aos que tinham segurado o seu dinheiro metendo-o em depósito num lugar, e num templo, que por todo o mundo era honrado pela veneração que infundia, e santidade que respirava. 13Mas Heliodoro, em cumprimento das ordens que recebera do rei, insistia que em todo o caso devia aquêle dinheiro ser levado ao rei. 14O dia pois que tinha assinado para isso, entrou êle no templo, para haver de ordenar a entrega dêste dinheiro. Entretanto não havia pequeno sobressalto por tôda a cidade. 15Os sacerdotes porém se prostraram diante do altar com as suas vestes sacerdotais, e invocavam aquêle que está do céu dominando tudo, que fêz uma lei sôbre os depósitos, rogando-lhe que os guardasse salvos para aquêles que os tinham depositado. 16Já quanto aos que olhavam para o semblante do sumo sacerdote, ficavam com o coração traspassado: Porque a mudança do seu parecer, e da sua côr, mostrava bem a pena interior da sua alma: 17Porque uma certa tristeza difundida por todo êle e o horror de que o seu corpo parecia tomado, era o sinal por que se fazia manifesta, aos que o viam, a dor do seu coração. 18Outros também corriam em bandos de suas casas, conjurando a Deus com públicas preces, que não permitisse que um lugar tão santo houvesse de ser exposto ao desprêzo. 19E as mulheres cingidas pelo peito com cilícios, iam em ranchos pelas ruas: E até as donzelas, que antes se conservavam tlausuradas, corriam umas para Ônias, e outras para os muros, e algumas olhavam pelas janelas: 20Tôdas, porém, levantando as mãos para o céu, dirigiam a Deus as suas rogativas: 21E era na verdade um espetáculo digno de compaixão, ver tôda esta confusa multidão de povo, e o sumo sacerdote reduzido a uma tal angústia. 22E êstes sinceramente invocavam a Deus todo-poderoso, para que êle conservasse inviolável o depósito daqueles que lho tinham confiado. 23Mas Heliodoro levava ao fim o que tinha determinado, achando-se no mesmo lugar presente êle com os seus guardas junto à porta do erário. 24Mas o espirito de Deus todo-poderoso se deu então a conhecer em sinais bem sensíveis, de sorte que todos os que tinham ousado obedecer a Heliodoro, lançados a terra pelo poder de Deus, chegaram a ficar num total desfalecimento, e em grande terror. 25Porque lhes apareceu um cavalo, sôbre que estava montado um homem terrível, ajaezado com os melhores arreios: O qual, investindo com ímpeto a Heliodoro, lhe deu muitas patadas com os dois pés de diante: E o que vinha montado sôbre êle, parecia ter armas de ouro. 26Ao mesmo tempo se viram outros dois mancebos, de varonil formosura, cheios de majestade, e ricamente ataviados: Os. quais rodearam a Heliodoro, e o açoita-vam nas costas cada um da sua banda, descarregando sobre êle muitos golpes sem cessar. 27Caiu pois Heliodoro de repente por terra, e envolvido todo êle numa grande escuridade o arrebataram e pôsto numa cadeira de mãos o lançaram dali para fora. 28Assim o que tinha entrado no já mencionado erário com tanta comitiva de guardas e de arqueiros, era levado sem ninguém o poder socorrer, no que se tinha deixado ver manifestamente o poder de Deus: 29E êle na verdade por um efeito dêste divino poder jazia emudecido, e sem esperança alguma de vida. 30Mas os outros bendiziam o Senhor, por engrandecer o seu santo lugar E o templo que pouco antes estava cheio de trepidação, e de tumulto, logo que o Senhor manifestou a sua onipotência, se encheu de gôsto, e de alegria. 31Então, porém, alguns dos amigos de Heliodoro foram a tôda a pressa suplicar a Onias, que quisesse invocar o Altíssimo, para que êle desse vida ao que estava reduzido a dar o último bocejo. 32Então o sumo sacerdote considerando que o rei poderia talvez suspeitar alguma trama urdida pelos judeus contra Heliodoro ofereceu uma hóstia saudável pela vida daquele homem. 33E quando o sumo sacerdote fazia a sua oração, os mesmos dois mancebos vestidos dos mesmos trajos, apresentando-se a Heliodoro, lhe disseram: Dá as graças ao sacerdote Onias: Porque o Senhor te deu a vida por seu respeito. 34Tu pois que assim fôste açoitado por Deus, anuncia a todos as maravilhas de Deus, e o seu poder. E ditas estas palavras desapareceram. 35E Heliodoro depois de ter oferecido uma hóstia a Deus, e feito grandes promessas ao que lhe tinha concedido a vida, e dando graças a Onias, tornando a ir ajuntar-se com as suas tropas, voltou para O rei. 36E a todos testificava Heliodoro as obras do grande Deus, que êle vira com os seus olhos. 37E tendo perguntado o rei a Heliodoro quem lhe parecia apto para ser ainda mandado outra vez a Jerusalém, respondeu: 38Se tu tens algum inimigo; ou algum que tenha maquinado contra o teu reino, manda-o lá, e tu o receberás tornado a vir açoitado, se é que escapar: Porque verdadeiramente naquele templo há uma virtude divina. 39Porque aquêle mesmo que tem a sua habitação nos Céus, êsse mesmo é visitador, e protetor daquele lugar, e êle fere, e mata aos que lá chegam para fazer algum mal. 40Isto é pois o que se passou a respeito de Heliodoro, e da conservação do erário.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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