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Daniel 13

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Havia também um homem que habitava em Babilônia, e o seu nome era Joaquim: 2Êste casou pois com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, formosíssima e temente a Deus: 3Porque seus pais, como eram justos, instruiram a sua filha segundo a lei de Moisés. 4Ora Joaquim era muito rico, e tinha uma. horta ajardinada junto a sua casa: E os judeus concorriam a êle, porque era o mais respeitável de todos. 5Naquele ano porém tinham sido constituídos juízes dois velhos dentre o povo, dos quais falou o Senhor quando disse: Que a iniqüidade saiu de Babilônia por uns velhos que eram juízes, os quais pareciam governar o povo. 6Êstes fregientavam a casa de Joaquim, e a êles vinham todos os que tinham negócios para julgar. 7E ao meio-dia, quando o povo se tinha ido, entrava Susana, e passeava no pomar de seu marido. 8E êstes velhos a viam entrar, e passear todos os dias: IE conceberam uma ardente paixão por ela: 9E assim perverteram o seu sentido, e voltaram os seus olhos para não verem o céu, nem se lembrarem dos justos juízos. 10Êles pois estavam ambos feridos do amor de Susana, e todavia não declararam um ao outro o motivo da sua dor: 11Porque se envergonhavam de descobrir um ao outro o seu libidinoso apetite, tendo cada um tenção de corromper a Susana: 12Assim êles observavam todos os dias com grande cuidado o tempo em que a poderiam ver. Um dia pois disse um ao outro: 13Vamos para casa, porque são horas de jantar. E tendo saído, se separaram um do outro. 14Mas tornando logo a vir, se encontraram de novo no mesmo lugar: E depois de se terem perguntado de parte a parte a causa, confessaram ambos a sua paixão, e então de comum acôrdo ajustaram tempo, em que a pudessem achar só. 15Aconteceu pois que aguardando eles uma ocasião oportuna, entrou ela enfim como tinha de costume, acompanhada sòmente de duas donzelas, e quis lavar-se no pomar: Porque fazia calma: 16E não estava então ali ninguém, senão os dois velhos, que estavam escondidos e a estavam contemplando. 17Disse pois Susana às donzelas: Trazei-me cá os óleos, e as pômadas, e fechai as portas do jardim, para me lavar. 18E fizeram as donzelas o que ela lhes tinha mandado: E fecharam as portas do jardim, e saíram pela porta travessa para trazerem o que lhes tinha mandado: Elas não sabiam que os velhos estavam dentro escondidos. 19E tanto que as donzelas saíram, levantaram-se os dois velhos, e correram a ela, e lhe disseram: 20Eis-aí estão fechadas as portas do jardim, e ninguém nos vê, e nós ardemos em paixão por ti: Rende-te pois ao nosso desejo, e entrega-te a nós: 21Porque se tu não quiseres, daremos testemunho contra ti, dizendo que estava contigo um mancebo, e que por isso despediste de ti as donzelas. 22Ao ouvir isto, deu Susana um grande gemido, e disse: De tôdas as partes me vejo cercada de angústias: Porque se eu fizer o que vós desejais, incorro na morte: E se o não fizer não escaparei das vossas mãos. 23Porém melhor me é a mim cair entre as vossas mãos sem cometer o mal, do que pecar na presença do Senhor. 24E imediatamente deu Susana um grande grito: E os velhos também gritaram contra ela. 25E um dêles correu à porta do jardim e a abriu. 26Os criados da casa tendo pois ouvido gritar no jardim, correram lá pela outra travessa com ímpeto para verem o que era. 27E depois que lhos disseram os velhos, ficaram os criados sumamente envergonhados, porque nunca tal coisa se tinha dito de Susana. E amanheceu o dia seguinte. 28E tendo vindo o povo à casa de Joaquim, seu marido, vieram também os dois velhos, cheios do iníquo pensamento que tinham formado contra Susana, para lhe fazerem perder a vida. 29E eles disseram diante do povo: Mandai buscar a Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim. E logo a mandaram buscar. 30E ela veio acompanhada de seus pais e de seus filhos e de todos os seus parentes. 31Ora Susana era por extremo delicada, e de uma formosura extraordinária. 32Então aquêles iníquos lhe mandaram descobrir o rosto (porque o tinha coberto com um véu) para se fartarem ao menos assim com a vista da sua beleza. 33À vista pois dêste caso choravam os seus, e todos os que a conheciam. 34Então aquêles dois velhos levantando-se no meio do povo, puseram as suas mãos sôbre a cabeça de Susana. 35A qual chorando levantou os olhos ao céu: Porque o seu coração tinha uma firme confiança no Senhor: 36E os velhos disseram: Quando nós passeávamos sós no jardim, entrou esta mulher com duas donzelas: E fechou as portas do jardim, e despediu de si as donzelas. 37E um mancebo, que estava escondido, veio-lhe ao encontro, e pecou com ela. 38Ora nós, que estávamos então a um canto do jardim, vendo esta maldade, corremos a êles, e os vimos estar a ambos neste ato. 39E nós não pudemos na verdade apanhar o mancebo, porque era mais forte do que nós e tendo aberto a porta se salvou correndo: 40Mas tendo nós apanhado a esta, lhe perguntamos que mancebo era aquêle, e ela não nó-lo quis dizer: Dêste sucesso somos nós testemunhas. 41Todo o ajuntamento lhes deu crédito, como a velhos e a juízes do povo, e êles a condenaram à morte. 42Então exclamou Susana mui de rijo, e disse: Deus eterno, que penetras as coisas escondidas, que conheces tôdas as coisas ainda antes que elas sejam feitas. 43Tu sabes que êles deram contra mim um falso testemunho: E eis-aqui morro, sendo que eu não fiz nada do que êles inventaram maliciosamente contra mim. 44E escutou o Senhor a sua oração. 45E quando a conduziam à morte, suscitou o Senhor o santo espírito de um moço ainda menino, cujo nome era Daniel: 46E gritou em alta voz dizendo: Eu estou inocente do sangue desta mulher. 47E tendo-se voltado para êle todo o povo, lhe disse: Que quer dizer essa palavra que tu acabas de proferir? 48Daniel, pondo-se em pé no meio dêles, disse: E” possível, filhos de Israel, que sejais vós tão fátuos que: sem forma de juízo, e sem mais informação da verdade, condenastes a uma filha de Israel? 49Tornai a julgá-la de novo, porque êles disseram um falso testemunho contra ela. 50Voltou pois o povo apressadamente, e os velhos. disseram a Daniel: Vem, e assenta-te no meio de nós, e instrui-nos: Porque Deus te deu a honra da velhice. 51E Daniel disse aos dos povo: Separai-os longe um do outro, e eu os julgarei. 52Tendo sido pois separados um do outro, chamou Daniel um dêles, e lhe disse: Homem inveterado no mal, os pecados que tu cometias noutro tempo, caíram agora sôbre ti. 53Sôbre ti que pronunciavas juízos injustos, que oprimias os inocentes, e que absolvias os culpados, apesar de dizer o Senhor: Tu não farás morrer o inocente e o justo. 54Agora pois, se tu apanhaste esta mulher, dize debaixo de que árvore os viste tu falar um com o outro. Êle respondeu: Debaixo de um lentisco. 55E Daniel lhe disse: Justamente é que a tua mentira vai a recair sôbre a tua cabeça: Porque eis-aí O Anjo de Deus, que tendo recebido dêle. o poder de executar a sentença contra ti proferida, te partirá pelo meio. 56E feito retirar êste, mandou que viesse o outro: E lhe disse: Raça de Canaã, e não de Judá, a formosura te seduziu, e a concupiscência” te perverteu o coração. 57Assim é que tu fazias às filhas de Israel, e elas por mêdo falavam convosco: Mas a filha de Judá não sofreu a vossa iniquidade. 58Dize-me pois agora, debaixo de que árvore os apanhaste tu, quando se estavam falando. Respondeu êle: Debaixo de um carvalho. 59E Daniel lhe disse: Justamente é também que a tua mentira vai a recair sôbre a tua cabeça:. Porque o Anjo do Senhor está esperando com a espada na mão, para te cortar pelo meio, e para vos matar a ambos. 60Logo todo o povo gritou em altas vozes e bendisseram a Deus, que salva aos que esperam nêle. 61E eles se levantaram contra os dois velhos (por- «que Daniel os tinha convencido por sua própria bôca de terem dado um testemunho falso) e lhes fizeram sofrer o mesmo mal que os dois tinham querido fazer a seu próximo, 62para cumprirem a lei de Moisés: Assim êles os mataram e o sangue inocente foi salvo naquele dia. 63Então Helcias e sua mulher louvaram a Deus por Susana, sua filha, com Joaquim, seu marido, e com todos os parentes, por se não ter nela achado coisa que -ofendesse a honestidade. 64E Daniel: desde êste dia, e pelo decurso do tempo, se fêz grande diante do povo. 65E o rei Astyages foi pôsto junto a seus pais e recebeu Ciro persa o seu reino dêle.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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