Eclesiástico 37
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Todo o amigo dirá: Eu também tenho contraido amizade. Mas há um amigo que só é amigo no nome. Acaso não é esta uma tristeza que dura até à morte? 2Ora um companheiro e amigo se converterá em inimigo. 3O” perversissima invenção! De onde tomaste tu a tua origem para vires cobrir a terra de tal malícia, e da tua perfídia? 4O companheiro alegra-se com o amigo nas ocasiões de prazer, e no tempo da tribulação será seu adversário. 5Um companheiro se condói do seu amigo por causa do ventre, e contra o inimigo embraçará o escudo. 6Não apagues dentro do teu coração a memória do teu amigo, e não te faças esquecido dêle no meio das tuas riquezas. 7Não queiras tomar conselho com aquêle que te arma. traições, e esconde o teu desígnio dos que te têm inveja. 8Todo homem consultado dá o seu conselho, mas há conselheiro que só atende a si mesmo. 9Guarda a tua alma do conselheiro: Informa-te primeiro sôbre qual seja a sua necessidade: Porque até êle mesmo dentro no seu coração estenderá o pensamento à própria conveniência: 10Para que não suceda, talvez. que finque na terra uma estaca, e te diga: 11O teu caminho é bom: E ao mesmo tempo se ponha da outra parte para ver o que te acontece. 12Vai tratar de santidade com um homem sem religião, e com um injusto sobre a justiça, e com uma mulher sôbre outra de quem ela tem ciúme: Com o covar-de a respeito da guerra: Com o negociante acêrca do tráfico das mercadorias, com o comprador sôbre a venda, com o homem invejoso sôbre o mostrar-se agradecido, 13com o ímpio sôbre a piedade, com o desonesto sobre a honestidade, com o operário do campo sôbre qualquer trabalho, 14com o jornaleiro por ano sôbre a obra que se há-de concluir no tal ano, com o servo preguiçoso a respeito da muita lida: Não atendas a êstes em nenhum dos mencionados conselhos. 15Mas acha-te de continuo com o varão santo, qualquer que tu conheceres que observa o temor de Deus, 16cuja alma é segundo a tua alma: E que se condoerá de ti, quando andares titubeando em trevas. 17Forma dentro de ti um coração de bom conselho: Pois não tens outra coisa de maior preço do que êle. 18A alma dum homem santo descobre algumas vêzes melhor a verdade, do que sete sentinelas assentadas no alto para atalaiar o que se passa. 19Mas em tôdas estas coisas, pede ao Altíssimo que dirija o teu caminho em verdade. 20Antes de tôdas as tuas obras vá adiante de ti a palavra verídica, e antes de tôda a ação um conselho estável. 21Uma palavra má transtornará o coração: Dele nascem quatro coisas, o bem e o mal, a vida e a morte, e sôbre elas quem domina de continuo é a língua. Há homem sagaz que ensina a muitos, e para a sua alma é inútil. 22Um homem perito instruiu a muitos, e para a sua alma é suave. 23Aquêle que usa duma linguagem sofística, é digno de que o aborreçam: Êste tal em tôda a coisa ficará defraudado. 24Não lhe foi dada pelo Senhor a graça: Pois se acha destituído de tôda a sabedoria. 25É sábio o que sabe para a sua alma: E o fruto da sua sabedoria é louvável. 26O homem sábio instrui o seu povo e os frutos da sua sabedoria são fiéis. 27O homem sábio cheio será de bênçãos, e louvá-lo-ão os que o virem. 28À vida do homem se encerra num certo número de dias: Porém os dias de Israel são inumeráveis. 29O sábio adquirirá para si honra entre o povo, e o seu nome viverá eternamente. 30Filho, prova a tua alma na tua vida: E se ela fôr má, não lhe dês liberdade: 31Porque nem tôdas as coisas convêm a todos, nem a tôda a alma agrada o exercício das mesmas coisas. 32Não queiras ser glutão em banquete algum, e não te lances a todos os pratos: 33Porque nas muitas viandas estará a doença, e a glutoneria chegará até à cólera. 34Por causa da intemperança morreram muitos: Porém o que é abstinente acrescentará a vida.