Gênesis 41
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Passados dois anos teve Faraó um sonho. Parecia-lhe que estava sôbre o rio, 2do qual saíam sete vacas por extremo formosas e gordas, que pastavam nuns lugares palustres. 3Que depois saíam do rio outras sete tôdas desfiguradas, e extremamente magras, que pastavam na ribanceira do mesmo rio, nuns lugares cheios de erva. 4E que estas últimas devoraram as primeiras, que eram por extremo formosas e bem anafadas. Faraó tendo acordado, a 5tornou a adormecer, e teve outro sonho. Eram sete espigas muito gradas, e muito formosas, que saíam de uma mesma cana. 6Apareciam também outras sete muito chupadas, por causa de um vento abrasador, que as batera. 7E estas últimas devoraram as primeiras, que eram formosíssimas. Sendo espertado Faraó, 8ficou cheio de medo; e tendo mandado logo pela manhã buscar todos os adivinhos, e todos os sábios do Egito contou-lhes o seu sonho; e não se achou ninguém, que lho interpretasse. 9Então o copeiro-mor, lembrando-se enfim de José, disse ao rei: Eu confesso a minha culpa. 10Quando vossa majestade, estando irado contra seus servos, mandou que eu com o padeiro-mor fôssemos metidos no cárcere do general de suas tropas, 11ambos nós tivemos numa mesma noite um sonho, que nos prognosticava o que nos havia de acontecer depois. 12Estava então naquele cárcere um moço hebreu, criado do mesmo general do exército de vossa majestade, ao qual tendo cada um de nós contado o seu sonho, 13êle nos disse tudo o que o sucesso depois confirmou. Porque eu fui restabelecido no meu cargo, e o padeiro-mor foi pendurado numa cruz. 14Logo por ordem do rei, foi José tirado do cárcere: tosquiaram-no, fizeram-no mudar de vestidos, e apresentaram-no diante dêste príncipe. 15Então disse Faraó para êle: Eu tive uns sonhos; e não se acha ninguém, que os decifre: Mas a mim disseram-me que tu tinhas grandes luzes para os interpretar. 16Josélhe respondeu: Deus, e não eu, será o que dê ao rei uma resposta bem favorável. 17Recontou-lhe pois Faraó o que tinha visto. Parecia-me que estava à ribanceira do rio, 18e que do rio saíam sete vacas muito formosas, e duma extremada gordura, que pastavam erva num paul: 19E que depois saíam outras sete tão desfiguradas, e duma tão prodigiosa magreza, quais eu não vira no Egito. 20Estas últimas devoraram, e consumiram as primeiras, 21sem que elas por isso mostrassem dalguma sor-te que tinham ficado fartas: Mas ficando tão magras, e tão gafentas, como dantes estavam. Tendo eu acordado,. tornei a adormecer outra vez, 22e tive segundo sonho. Eram sete espigas muito: gradas, e muito formosas, que saíam duma mesma cana. 23Apareciam também outras sete muito chupadas,. por causa dum vento abrasador, que as batera: 24E estas últimas devoraram as primeiras, que eram tão formosas. Eu contei os meus sonhos a todos os adivinhos e nãó se acha ninguém, que os explique. 25Respondeu José: Os dois sonhos de vossa majestade significam ambos a mesma coisa. Deus mostrou a vossa majestade, o que êle tem de fazer para o futuro. 26As sete vacas tão formosas, e as sete. espigas tão cheias de grão, que vossa majestade viu em sonhos, denotam uma mesma coisa, e significam sete anos de fertilidade. 27As sete vacas magras, e desfeitas, que saíram do rio depois daquelas primeiras; e as sete espigas chupadas, e arejadas dum vento abrasador, denotam outros sete anos de fome, que estão para vir. 28E isto se cumprirá desta maneira. 29Virão primeiramente sete anos duma fertilidade extraordinária em todo o Egito: 30aos quais seguir-se-ão outros sete duma tão grande esterilidade, que ela fará esquecer tôda a abundância passada: porque a fome consumirá tôda a terra: 31e aquela fertilidade tão extraordinária virá a ser como absorvida por esta extrema indigência. 32Quanto ao segundo sonho, que vossa majestade teve, e que significa a mesma coisa, êste é um sinal de que esta palavra de Deus será firme, e que ela se cumprirá infalivelmente e bem cedo. 33Da prudência logo de vossa majestade é escolher algum homem sábio, e industrioso, a quem vossa majestade dê o comando sôbre todo o Egito, 34para que êle estabeleça oficiais em tôdas as províncias, os quais enquanto durarem os sete anos de fertilidade que estão para vir, ajuntem nos celeiros públicos a quinta parte dos frutos da terra. 35Todo o trigo assim guardado esteja debaixo do poder de vossa majestade, e se conserve nas cidades, 36a fim de que êle se ache pronto para os anos da fome, que Jhá de oprimir o Egito, e não seja esta terra consumida pela fome. 37Agradou êste conselho a Faraó, e a todos os seus ministros. 38e êle lhes disse: Onde poderemos nós achar um homem, como êste que seja tão cheio, como êle o é, do «espírito de Deus? 39Disse pois Faraó a José: Pois que Deus te mostrou tudo o que tu disseste, onde poderei, eu achar alguém mais sábio do que tu, ou semelhante a ti? 40Tu serás o que tenhas a autoridade sôbre a mi-mha casa: ao que tu mandares pela tua bôca obedecerá todo o. povo: e eu não terei acima de ti senão o trono, e a qualidade de rei. 41Disse mais Faraó a José: Eu te constituo hoje governador sôbre todo o Egito. 42Ao mesmo tempo tirando o anel, que tinha na sua mão êle o meteu na de José: fê-lo vestir duma túnica de linho fino, e pôs-lhe ao pescoço um.colar de ouro. 43Depois fê-lo subir a um dos seus coches, que era o segundo abaixo do seu; e mandou que um pregoeiro denunciasse èm alta voz, que ajoelhassem todos diante dêle, e que todos o reconhecessem por governador que tinha sido estabelecido sôbre todo o Egito. 44Ainda disse mais Faraó a José: Eu sou Faraó: sem tua ordem ninguém moverá pé, nem mão em todo o Egito. 45Mudou-lhe também o seu nome, e chamou-o em língua egípcia, o salvador do mundo. Ao depois casou-o com Asenete, filha de Putífar, sacerdote de Heliópole. Depois, disto foi José dar uma vista a todo o Egito. 46Tinha êle trinta anos, quando apareceu diante do rei Faraó e êle correu em roda todo o Egito. 47Chegaram pois os sete anos de fertilidade; e tendo sido o trigo pôsto em molhos, foi depois amontoado nos celeiros do Egito. 48Tôda esta grande abundância de grão foi posta de reserva em tôdas as cidades. 49Porque foi tão grande a quantidade de trigo, que houve, que ela igualava a areia do mar, e não se podia reduzir a medida. 50Antes que chegasse a fome, teve José dois filhos de sua mulher Asenete, filha de Putífar, sacerdote de Heliópole. 51Chamou ao primogênito Manasses, dizendo: Deus me fêz esquecer de todos os meus trabalhos, e da casa de meu pai. 52Chamou ao segundo Efraim, dizendo: Deus me fêz crescer na terra da minha pobreza. 53Passados pois que foram êstes sete anos de fertilidade no Egito, 54começaram os sete anos de esterilidade, segundo a predição de José; e quando todo o resto do mundo estava aflito da fome, havia no Egito muito pão. 55O povo achando-se apertado da fome, gritou a Faraó, e lhe pediu de que viver: Êle porém lhe respondeu: ide ter com José, e fazei tudo o que êle vos disser. 56Entretanto a fome crescia todos os dias em tôda a terra; e José abrindo todos os celeiros, vendia trigo aos egiptanos: Porque êstes mesmos eram atormentados da fome. 57E de tôdas as partes vinham homens ao Egito a comprar de comer, e a buscar com que aliviarem o mal desta falta de grão.