Gênesis 44
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Ora José deu esta ordem ao dispenseiro de sua casa, e lhe disse: Mete nos sacos destes homens quanto trigo êles puderem levar, e o dinheiro de cada um no cimo dos sacos; 2e mete a minha taça de prata na bôca do saco do mais moço com o dinheiro, que deu pelo seu trigo. E assim se fêz. 3E ao outro dia pela manhã deixaram-nos ir com os seus burros. 4Quando êles tinham saído da cidade, e tinham. já caminhado um pedaço, chamou José o dispenseiro de sua casa, e lhe disse: Corre depressa atrás daqueles homens, e suspende-os do caminho, e dize-lhes: Por que tornastes vês mal por bem? 5A taça, que vós furtastes, é aquela, por onde bebe meu senhor, e a de que êle se serve para as suas adivinhações. Vós fizestes uma coisa malíssima. 6Fêz o dispenseiro o que lhe fôra mandado; e tendo-os embargado, disse-lhes tudo o que lhe fôra ordenado que dissesse. 7Êles lhe responderam: Por que fala nosso Senhor assim a seus servos, e os julga capazes -de cometer uma ação tão vergonhosa? 8Nós tornamos-te a trazer o dinheiro, que achamos na bôca dos nossos sacos. Como podia logo ser, que nós furtássemos da casa de teu senhor ouro, ou prata?: 9Aquêle de teus servos, qualquer que êle seja, a quem se achar o que tu buscas, morra; e nós seremos escravos de nosso senhor. 10Êle lhes disse: Faça-se conforme vós sentenciastes. Qualquer, a quem fôr achado o que eu busco, seja meu escravo: e quanto a vós outros, vós sereis inocentes. 11Descarregaram êles pois logo os seus sacos em terra, e cada um abriu o seu. 12O dispenseiro tendo-os examinado todos, começando desde o mais velho até ao mais moço, achou a -taça no saco de Benjamim. 13Então êles, rasgados os seus vestidos, e tornados a carregar os seus burros, voltaram outra vez para a cidade. 14Judá foi o primeiro, que se apresentou com seus irmãos diante de José, o qual sc não tinha ainda arredado do lugar, onde estava; e todos juntos se prostraram em terra diante dêle. 15José lhes disse: Por que vos houvestes vós assim comigo? Vós não sabeis que não há ninguém, que me iguale na ciência de adivinhar? 16Disse-lhe Judá: Que responderemos nós a nosso Senhor? Que lhe diremos nós, e que lhe poderemos nós representar, que tenha alguma sombra de justiça parà nossa defesa? Deus achou a iniquidade dos teus servos: eis-aqui somos nós escravos de meu senhor, nós, e aquêle,.a quem foi achado o copo. 17Respondeu José: Deus me defenda de tal fazer. Aquêle, que me furtou a minha taça, êsse seja meu escravo; e vós outros ide com tôda a liberdade para vosso pai. 18Então Judá chegando-se mais para José, lhe disse confiadamente: meu senhor, permite, te peço, a teu servo, que êle te fale, e não te agastes com o tèu servo. Porque abaixo de Faraó 19tu é que és meu senhor. Tu perguntaste no princípio a teus servos: Vós tendes ainda pai, ou algum outro irmão? 20E nós te respondemos: Meu senhor, nós temos um pai, que é velho, e um irmão pequeno, que êle houve na sua velhice: outro irmão, que tinha nascido da mesma mãe, é já morto. Sua mãe não tem senão êste, e seu pai o ama ternamente. 21Então disseste tu a teus servos: Trazei-mo cá, que gostarei de o ver; 22Mas nós te respondemos: Meu senhor, o menino não pode largar a seu pai; porque se o largar morrerá o pai. 23Disseste tu a teus servos: Se o mais pequeno de vossos irmãos não vier convosco, vós não me tornareis mais a ver a cara. 24Quando pois voltamos para nosso pai, teu servo, nós lhe contamos tudo o que meu senhor nos dissera. 25E nosso pai nos disse: Tornai a ir, para nos comprardes um pouco de trigo. 26Nós lhe dissemos: Nós não podemos ir: se nosso irmão mais moço vier conosco, iremos todos juntos: mas sem êle vir, nós nos não atrevemos a aparecer diante daquele homem. 27Êle nos respondeu: Vós sabeis que eu tive dois filhos de minha mulher. 28Tendo um dêles saído ao campo, dissestes vós que uma bêsta fera o tinha devorado: e até agora não aparece. 29Se vós levardes também êste outro, e lhe suceder alguma coisa no caminho, vós com a pena, que isto me causará, dareis com êste pobre velho na sepultura. 30Se eu pois chegar a meu pai, teu servo, e não lhe aparecer êste menino; como a sua vida depende da de seu filho, 31quando êle vir que o menino não vem conosco, morrerá; e teus servos causarão à sua velhice uma dor, que o leve à cova. 32Seja eu pois antes o que fique por teu escravo, pois que me obriguei a dar conta dêste menino, e isso prometi a meu pai, dizendo: Se eu to não tornar a trazer, não se me dará que meu pai me impute esta falta, e que êle ma não perdoe nunca. 33Assim eu ficarei teu escravo, e servirei a meu senhor em lugar dêste menino, para que êle volte com seus irmãos. 34Porque eu não posso tornar para meu pai, sem que vá êste menino; por não suceder que vá, eu mesmo ser testemunha da extrema aflição, que acabará a meu pai.