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Jó 10

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1A minha alma tem tédio à minha vida, soltarei a minha língua contra mim, falarei na amargura da minha alma. 2Direi a Deus: Não me condenes: Mostra-me por que assim me julgas? 3Porventura parece-te bem caluniares-me e oprimires-me a mim que sou obra das tuas mãos, e favoreceres o desígnio dos ímpios? 4Acaso tens tu olhos de carne: ou vês tu as coisas, bem como as vê o homem? 5Acaso são os teus dias como os dias do homem, ou são os teus anos como os tempos do homem, 6para te informarés da minha iniquidade, e averiguares o meu pecado? 7Ainda que tu sabes que eu não cometi impiedade alguma, não havendo ninguém que possa arrancar-me da tua mão. 8As tuas mãos me fizeram, e me formaram todo em roda: E assim de repente me despenhas? 9Lembra-te, eu to peço, que como barro tu me formaste, e que me hás de reduzir a pó. 10Porventura não me mungiste como leite, e como queijo me coalhaste? 11De pele e de carne me vestiste: De ossos e de nervos me compuseste: 12Vida, e misericórdia me concedeste, e a tua assistência conservou o meu espírito. 13Ainda que tu escondas estas coisas em teu coração, eu sei todavia que tu te lembras de tudo. 14Se eu pequei, tu me perdoaste na mesma hora: Por que não permites tu que eu esteja limpo da minha iniquidade? 15Sê fôr mau, desgraçado de mim: Mas se fôr justo, não levantarei cabeça, farto de aflição e de miséria. 16E por causa da minha soberba, tu me apanharás como a uma leoa, e me tornarás a atormentar de um modo terrível. 17Tu renovas contra mim as testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira, e as penas combatem contra mim. 18Por que me tiraste tu do ventre de minha mãe? Oxalá que eu tivera perecido, para que nenhum ôlho me visse, 19Que tivera sido como se não fôra, desde o ventre trasladado para a sepultura. 20Porventura o pequeno número de meus dias não se acabará em breve? Deixa-me pois que eu chore um pouco a minha dor: 21Antes que vá para não tornar para aquela terra tenebrosa, e coberta da escuridade da morte: 22Terra de miséria, e de trevas, onde habita a sombra da morte, e não há nenhuma ordem, senão um sempiterno horror.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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