Jó 3
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Depois disto abriu Jó a sua bôca, e amaldiçoou o dia do seu nascimento, 2e falou assim: 3Pereça o dia em que eu fui nado, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem. 4Converta-se aquele dia em trevas. Deus desde o alto Céu não olhe para êle, nem êle seja esclarecido pela luz. 5Escureçam-no as trevas, e a sombra da morte, cerque-o uma negra escuridão, e seja envolto em amargura. 6Um tenebroso redemoinho ocupe aquela noite, não se conte entre os dias do ano, nem se numere entre os meses, 7Seja aquela uma noite solitária, e não digna de louvor: 8Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, e os que estão prontos para sucitar a Leviatã: 9Escureçam-se, as estrelas pela sua negridão: Ela espere a luz. e não a veja, nem o nascimento da aurora quando raia: 10Porque ela não fechou as portas do ventre que me trouxe, nem apartou de meus olhos os males. 11Por que não morri eu dentro do ventre de minha mãe, por que não pereci tanto que saí dele? 12Por que fui recebido entre os joelhos? Por que me alimentaram com o leite dos peitos? 13Porque agora dormindo estaria em silêncio, e des-cansaria no meu sono: 14Juntamente com os reis e conselheiros da terra, que fabricam para si solidões. 15Ou com os príncipes, que possuem o ouro, e que enchem as suas casas de prata: 16Oir como abôrto que se oculta não existiria, ou como os que depois de concebidos não viram a luz. 17A li os ímpios cessaram de tumultos, e ali acharam descanso os cansados de forças. 18E os encarcerados em outro tempo estão já sem moléstia, nem ouviram a voz do exator. 19O pequeno e o grande ali estão e, o escravo está livre de seu Senhor. 20Por que foi concedida luz ao miserável, e vida aos que estão em amargura de ânimo? 21Os que esperam a morte, e não lhes vem, como os que cavam em busca de um tesouro: 22E que ficam transportados de alegria quando acham o sepulcro. 23A um homem que não sabe o caminho, e a quem Deus cercou de trevas? 24Suspiro antes de comer: E os meus gemidos são bem, como águas que inundam: 25Porquanto o temor, que temia, me veio: E me aconteceu o que receava. 26Porventura não dissimulei? Não me calei? Não estive sossegado? E veio sôbre mim a indignação.