Jó 30
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Porém agora zombam de mim os de menos idade, cujos pais noutro tempo não me dignaria eu pôr com os cães do meu rebanho: 2Aquêles, cuja fôrça de mãos reputava eu em nada, e eram estimados como indignos de viver. 3Estéreis pela pobreza e pela fome, que andavam roendo pelo deserto, esquálidos pela calamidade e pela miséria. 4E comiam ervas, e cascas de árvores, e que se sustentavam das raízes dos juníperos. 5Que arrebatando dos vales estas coisas, logo que as achavam, corriam a elas com gritaria. 6Habitavam nas concavidades dos rios e nas cavernas da terra, ou sôbre os penhascos. 7Que achavam a sua alegria entre tais coisas, e reputavam por delícia estar debaixo dos espinhos. 8Filhos de gente insensata e desprezível, e que nem ainda aparecem na terra. 9Agora tenho chegado a ser a sua canção e me tenho feito objeto dos seus escárnios. 10Êles me abominam e fogem para longe de mim, e não receiam cuspir-me no rosto. 11Porque abriu a sua aljava e me afligiu, e pôs um freio na minha bôca. 12Logo que comecei a aparecer se levantaram à minha destra as minhas calamidades: Transtornaram os meus pés, e me oprimiram com as suas veredas, como com ondas. 13Desbarataram-me os meus caminhos, armaram-me traições, e prevaleceram, e não houve quem me socorresse. 14Como na brecha de uma muralha, e por uma porta aberta se lançaram sôbre mim, e me vieram acabar na minha miséria. 15Reduzido me vejo a um nada, arrebataste o meu desejo como vento: E como nuvem passou a minha saúde. 16E agora dentro de mim mesmo se murcha a minha alma, e me possuem dias de aflição, 17De noite os meus ossos são traspassados de dores: E os que me devoram não dormem. 18Com a multidão destes se consome 'o meu vestido, e me cercaram como com cabeção de túnica. 19Sou comparado ao lôdo, e sou semelhante ao pó e à cinza. 20Clamo a ti e não me ouves: Ponho-me diante de ti e não olhas para mim. 21Trocaste-te em severo para comigo, e na dureza da tua mão te mostras inimigo para comigo. 22Elevaste-me, e como pondo-me sôbre o vento, me arrojaste com violência. 23Sei que me entregarás à morte, onde há casa estabelecida para todo o vivente. 24Mas não estendes a tua mão para consumi-los inteiramente: E se caírem, tu mesmo os salvarás. 25Eu chorava algum dia sobre aquele que estava aflito: A minha alma se compadecia do pobre. 26Esperava bens, e vieram-me males: Esperava a luz e saíram trevas. 27As minhas entranhas ferveram sem descanso algum: Os dias da aflição me surpreenderam. 28Caminhava triste, mas sem furor: Levantando-me gritava no meio da gente. 29Fui irmão de dragões, e companheiro de avestruzes. 30Denegrida está a minha pele sôbre mim, e os meus ossos se secaram pelo ardor. 31A minha cítara se trocou em tristes lamentos, e o meu órgão nas vozes dos que choram.