Jó 6
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Jó pois respondendo, disse: 2Oxalá se pesassem numa balança os meus pecados, pelos quais mereci a ira: E a calamidade que padeço. 3Ver-se-ia que esta era mais pesada que a areia do mar: Pelo que as minhas palavras estão também cheias de dor: 4Porque as setas do Senhor estão em mim cravadas, e a malignidade delas devora o meu espírito, e terrores do Senhor combatem contra mim. 5Porventura ornejará o onagro, quando tiver erva? ou mugirá o boi quando tem diante a manjedoura cheia? 6Ou poderá comer-se a vianda insulsa, que não foi temperada de sal? ou pode alguém gostar o que mata a quem o come? 7As coisas que antes não queria tocar a minha alma, agora pela aflição são o meu sustento. 8Quem dera que se cumprisse a minha petição: E que Deus me concedesse o que espero? 9E aquele que começou, esse mesmo me fizesse em pó: Que soltasse a sua mão, e me cortasse pela raiz? 10E esta seria a minha consolação, que afligindo-me com a dor, não me perdoasse, nem eu contraditaria as palavras do Santo. 11Pois que fortaleza é a minha para poder sofrer? ou qual o meu fim, para me portar com paciência? 12Nem a fortaleza das pedras é a minha fortaleza, nem a minha carne é de bronze. 13Bem vedes que eu não acho socorro em mim, e que até os meus próximos me têm desamparado. 14Aquele que não tem compaixão de seu amigo, abandona o temor do Senhor. 15Meus irmãos passaram ao longe de mim, como a torrente que arrebatadamente corre pelos vales. 16Os que temem a geada, cairá sôbre eles neve. 17No tempo em que fôrem dissipados, perecerão: E logo que vier o calor, desaparecerão do seu lugar. 18Embaraçadas são as veredas dos seus passos: Andarão sôbre o vácuo, e perecerão. 19Considerai as veredas de Tema, os caminhos de Saba, e esperai um pouco. 20Eles ficaram confusos, porque esperei: Vieram também até perto de mim, e ficaram cobertos de pejo. 21Agora viestes: E tanto que vistes a minha chaga tivestes medo. 22Acaso disse-vos eu: Trazei-me, e dai-me dos vossos bens? 23Ou, livrai-me da mão do inimigo, e tirai-me do poder dos valentes. 24Ensinai-me, e eu me calarei: E se eu talvez ignorei alguma coisa, instruí-me, o 25Porque murmurastes vós de umas palavras de verdade, não havendo de vós algum que me possa arguir? 26Compondes discursos somente com o fim de in-crepar, e proferis palavras ao vento. 27Arremeteis contra um pupilo, e esforçai-vos por arruinar o vosso amigo. 28Com tudo isso acabai o que começastes: Aplicai o ouvido, e vede se eu minto. 29Respondei vos peço sem contenda: E dizendo o que é justo, julgai. 30E não achareis iniquidade alguma na minha língua, nem na minha bôca soará estultícia alguma.