Juízes 16
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Depois foi Sansão para Gaza, e como ali visse a uma mulher pública, entrou a ela. 2O que tendo ouvido os filisteus, e espalhado que foi entre eles o rumor, de que Sansão era entrado na cidade, cercaram-no, pondo guardas às portas da cidade: e ali o esperaram mui calados tôda a noite, para pela manhã ao sair o matarem. 3Sansão porém dormiu até à meia-noite: levantando-se depois pegou em ambas as metades da porta com os seus postes e fechaduras, e pondo às costas, as levou até o alto do monte, que olha para Hebron. 4Depois amou a uma mulher, que assistia no vale de Sorec, e se chamava Dalila. 5E com esta vieram ter os príncipes dos filisteus, e lhe disseram: Engana-o, e sabe dele, donde lhe vem tamanha fôrça, e de que modo o poderemos vencer, e maltratá-lo depois de atado. Se assim o fizeres, cada um de nós te daremos mil e cem moedas de prata. 6Disse pois Dalila a Sansão: Dize-me, te peço, em que esteja esta tua tão grande fôrça, e que coisa haverá que possa ligar-te de modo que não possas quebrá-la? 7Sansão lhe respondeu: Se me atarem com sete cordas de nervos, ainda não secos, e ainda úmidos, ficarei eu tão fraco como os mais homens. 8Trouxeram-lhe pois os príncipes dos filisteus sete cordas, como ela tinha dito, com as quais o atou, 9e estando êles de emboscada escondidos na sua casa, e esperando na sua câmara o sucesso da traição, gritou ela: Sansão: Eis-aí os filisteus sôbre ti. Êle quebrou as prisões, como se quebra um fio torcido de má estopa, ao chegar-lhe o cheiro do fogo: e não se pôde conhecer em que consistia a sua fôrça. 10Dalila lhe disse: Eis-aí zombaste tu de mim, e não me disseste a verdade: sequer agora descobre-me com que deves ser atado. 11Êle lhe respondeu: Sc me atarem com umas cordas novas, que ainda não tenham servido, ficarei eu sem fôrça, e semelhante aos outros homens. 12Dalila o atou segunda vez com elas, e gritou: Sansão, eis-aí os filisteus sôbre ti, pois estavam escondidos na câmara homens de emboscada. Êle quebrou logo as prisões como os fios duma teia. 13E Dalila ihe tornou a dizer: Até quando me hás de tu enganar, e dizer-me falsidades? descobre-me com que e preciso que te atem. Sansão lhe respondeu: Se teceres sete tranças dos cabelos da minha cabeça com os liços da teia, e atares isto a um prego, e cravares êste na terra, ficarei eu fraco. 14O que tendo feito Dalila, disse-lhe: Sansão, eis-aí os filisteus sôbre ti. Êle espertando do sono, arrancou o prego com os cabelos e os liços. 15E Dalila lhe disse: Como dizes tu que me amas, quando o teu afeto não propende para mim? Tens-me mentido por três vezes, e nunca me quiseste dizer em que está essa tua grande fôrça. 16E como o importunasse, e por muitos dias se não tirasse do pé dêle, sem lhe dar tempo para descansar, desmaiou enfim o ânimo de Sansão. e caiu num mortal desfalecimento. 17Então descobrindo lhe a verdade da coisa, disse-lhe: Sôbre a minha cabeça nunca se pôs ferro, porque sou Nazareno, isto é, consagrado a Deus desde o ventre de minha mãe: se me fôr rapada a cabeça ir-se-á de mim a minha fortaleza, e eu desfalecerei, e serei como os mais homens. 18E vendo ela que Sansão lhe tinha patenteado seu coração, enviou aos príncipes dos filisteus, e lhes fêz dizer: Vinde ainda esta vez, porque êle me descobriu agora o seu coração. Vieram êles, trazendo o dinheiro que lhe tinham prometido. 19E ela fêz que Sansão dormisse sôbre os seus joelhos, e reclinasse a cabeça no seu seio. E chamou a um barbeiro e lhe fêz cortar sete tranças do seu cabelo, e começou a enxotá-lo, e a lançá-lo de si: Pois que no mesmo ponto se foi dêle a fôrça. 20E disse-lhe: Sansão, eis-aí os filisteus sôbre ti. Espertando êle do sono, disse em seu coração: Sairei, como antes fiz, e me desembaraçarei dêles, porque não sabia que o Senhor se tinha retirado dêle. 21Mas os filisteus tendo-o tomado às mãos lhe tiraram logo os olhos, e o levaram a Gaza atado com cadeias, e encerrando-o no cárcere, o fizeram andar com uma mó. 22E já os seus cabelos lhe tinham começado a renascer, 23quando os príncipes dos filisteus se ajuntaram para imolarem solenes hóstias ao seu deus Dagon, e para se banquetearem, dizendo: O nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão nosso inimigo. 24O que vendo também o povo, louvou o seu deus, e dizia o mesmo: O nosso deus nos entregou nas mãos o nosso adversário, que arruinou a nossa terra, e matou a muitos. 25E alegrando-se nos banquetes, depois de terem já comido, mandaram que se chamasse Sansão, para lhes servir de brinco. E tendo-o tirado do cárcere, os divertia, e o fizeram estar em pé entre duas colunas. 26E êle disse para o moço que o guiava: Deixa-me chegar a tocar as colunas, em que se sustém tôda a casa, e arrimar-me a elas, e descansar um pouco. 27Estava a casa pois cheia de homens e mulheres, e estavam ali todos os príncipes dos filisteus, algumas três mil pessoas dum e outro sexo, que do teto e do pavimento estavam vendo brincar a Sansão. 28Êle porém invocando o Senhor disse: Senhor Deus, lembra-te de mim, e torna-me a dar agora a minha primeira fôrça, Deus meu, para me vingar de meus inimigos, e fazer pagar duma só vez a perda dos meus dois olhos. 29E abraçando-se com as duas colunas, em que a casa se sustinha, e pegando numa com a mão direita e na outra com a esquerda, 30disse: Morra Sansão com os filisteus: e sacudindo com grande fôrça as colunas, caiu a casa sôbre todos os príncipes, e sôbre todo o povo, que ali estava: e foram. muitos mais os que matou morrendo, do que os que matara antes quando vivo. 31E vindo seus irmãos e tôda a parentela, levaram o seu corpo, e o enterraram entre Saraa e Estaol no sepulcro de seu pai Manué: Depois de ter sido juiz de Israel vinte anos.