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Juízes 9

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1E Abimelec filho de Jerobaal foi-se a Siquem aos irmãos de sua mãe, e falou com êles, e com tôda a parentela da casa do pai de sua mãe, dizendo: 2Representai a todos os homens de Siquem: Qual é melhor para vós, serdes dominados por setenta homens, filhos todos de Jerobaal, ou por um só? considerai também que eu sou osso vosso, e carne vossa. 3E falaram os irmãos de sua mãe a favor dêle assim a todos os homens de Siquem, e inclinaram o coração deles a favor de Abimelec, dizendo: E” nosso irmão. 4E os siquemitas lhe deram setenta siclos de prata do templo de Baalberit. Com êste dinheiro tomou êle a seu sôldo uma tropa de gente miserável e vagabunda, que o seguiu. 5E passou a Efra a casa de seu pai, e matou em cima duma mesma pedra a setenta irmãos seus filhos, de Jerobaal: e ficou somente Joatão, que era o filho mais moço de Jerobaal que se escondeu. 6Então se ajuntaram todos os siquemitas, e tôdas as famílias da cidade de Melo: e foram, e constituíram por seu rei a Abimelec junto a um carvalho, que havia em Siquem. 7Tendo sido avisado disto Joatão, foi, e parou sobre o cume do monte de Garizim: e elevando a voz, clamou, e disse: Ouvi-me, moradores de Siquem, assim Deus vos ouça. 8Foram uma vez as árvores a eleger sôbre si um rei: e disseram à oliveira: Reina sôbre nós. 9Ela respondeu: Acaso posso eu deixar o meu óleo, de que se servem tanto os deuses como os homens, para vir a ser superior às outras árvores? 10E disseram as árvores à figueira: Vem, e toma o reinado sôbre nós. 11Ela lhes respondeu: Acaso posso eu deixar a minha doçura, e suavíssimos frutos, para ir a sobressair entre as outras árvores?. 12E disseram as árvores à videira: Vem, e toma o mando sôbre nós. 13Ela lhes respondeu: Porventura posso eu deixar o meu vinho, que é alegria de Deus e dos homens, para vir tomar O primeiro lugar entre as mais árvores? 14E tôdas as árvores disseram ao espinheiro: Vem, e serás nosso rei. 15Êle lhes respondeu: Se vós deveras me constituis por vosso rei, vinde, e repousai debaixo da minha sombra: Se o não quereis assim, saia fogo do espinheiro, e devore os cedros do Líbano. 16Agora pois, se com retidão, e sem pecado constituístes por vosso rei a Abimelec, e vos portastes bem com Jerobaal, e com a sua casa, e correspondestes como devíeis aos benefícios daquele que pelejou por vós, 17e qúe expôs a sua própria vida aos perigos, para vos livrar do poder de Madian: 18Vós, que agora vos levantastes contra a casa de meu pai, e tirastes a vida a setenta varões seus filhos sôbre uma mesma pedra, e constituístes rei dos habitadores de Siquem a Abimelec filho duma sua escrava, porque é vosso irmão: 19Se pois vós vos tendes portado com retidão, e sem pecado com Jerobaal e com a sua casa, alegrai-vos hoje com Abimelec, e êle se alegre convosco. 20Mas se obrastes perversamente: Saia fogo dêle, e devore aos habitadores de Siquem, e a cidade de Melo: e dos moradores de Siquem, e da cidade de Melo saia fogo, e devore a Abimelec. 21Tendo dito estas palavras, fugiu Joatão, e foi-se a Bera: e habitou ali por temer a Abimelec seu irmão. 22Reinou pois Abimelec sôbre Israel três anos. 23Mas o Senhor enviou um péssimo espírito entre Abimelec e os habitantes de Siquem, que começaram a detestá-lo, 24e a imputar a atrocidade da morte dos setenta filhos de Jerobaal; e a efusão do seu sangue a Abimelec, seu irmão, e aos outros príncipes dos siquemitas, que o tinham ajudado. 25E armaram contra êle ciladas no alto dos montes: e enquanto ali esperavam que viesse, cometiam roubos, despojando aos que passavam: e disto foi avisado Abimelec. 26Veio pois Gaad filho de Obed com seus irmãos, e passou a Siquem. A cuja chegada animados os siquemitas, 27saíram aos campos devastando as vinhas e pisando aos pés os cachos: e formados coros de cantores entraram no templo do seu Deus, e enquanto comiam e bebiam, amaldiçoavam a Abimelec, 28clamando Gaal filho de Obed: Quem é Abimelec? e que cidade é Siquem, para que nós lhe estejamos sujeitos? Não é êle filho de Jerobaal, e não constituiu a Zebul, seu servo, para príncipe da casa de Hemor pai de Siquem? Por que razão pois o serviremos? 29Prouvera a Deus, que alguém me desse o mando dêste povo, para eu dar cabo de Abimelec. E foi dito a Abimelec: Ajunta um exército numeroso, e vem. 30Porque Zebul governador da cidade, tendo ouvido o que dissera Gaal, filho de Obed, ficou por extremo irado, 31e enviou secretamente correios a Abimelec que lhe dissessem: Adverte que Gaal, filho de Obed veio a Siquem com seus irmãos, e anda sublevando a cidade contra ti. 32Portanto sai de noite com as tropas, que tens contigo, e deixa-te estar escondido no campo: 33e pela manhã ao sair do sol, dá de golpe sôbre a cidade: e saindo Gaal contra ti com a sua gente, faze-lhe o que puderes. 34Abimelec pois marchou de noite com todo o seu exército, e pôs emboscadas em quatro lugares ao pé de Siquem. 35E saiu Gaal, filho de Obed, e fêz alto à entrada da porta da cidade. E saiu Abimelec do lugar das emboscadas com todo o exército. 36Quando Gaal viu aquela gente, disse a Zebul: Repara quanta gente desce dos montes. Zebul lhe respondeu: Tu vês as sombras dos montes, que te parecem: cabeças de homens, e com isto te enganas. 37Mas Gaal lhe replicou: Olha que multidão desce das alturas da terra, e que esquadrão vem vindo pelo caminho que olha para o carvalho. 38Zebul lhe respondeu: Onde esta agora aquela audácia, com que tu dizias: Quem é Abimelec para lhe estarmos sujeitos! Não é êste o povo, que tu desprezavas? Sai e peleja contra êle. 39Saiu pois Gaal à vista de todo o povo de Siquem, e pelejou contra Abimelec, 40que o foi seguindo na fugida, e o constrangeu a entrar na cidade: e morreram muitos dos seus até à porta da cidade: 41e Abimelec se deteve em Ruma: Zebul porém lançou fora da cidade a Gaal e a seus companheiros e não sofreu que morasse nela. 42Ao outro dia saiu o povo à campanha. O que tendo sabido Abimelec, 43tomou o seu exército, e o dividiu em três batalhões, dispondo emboscadas nos campos. E vendo que o povo saía da cidade, pôs-se em movimento e deu sôbre êles 44com o seu batalhão, combatendo, e sitiando a cidade: Porém os outros dois batalhões perseguiam os inimigos, que estavam derramados pelo campo. 45E Abimelec todo aquêle dia estêve combatendo a cidade: e a tomou depois de mortos os seus habitantes, e a destruiu de sorte que a semeou de sal. 46O que tendo ouvido os que habitavam na tôrre de Siquem, entraram no templo do seu deus Berit, onde tinham feito aliança com êle, e daqui tinha tomado o nome o lugar, que era mui forte. 47Abimelec também ouvindo que os homens da tôrre de Siquem estavam nela juntos e apinhados, 48subiu ao monte de Selmon com tôda a sua gente: e, tomando um machado, cortou um ramo duma árvore, e trazendo-o pôsto ao ombro, disse aos seus companheiros: Fazei depressa o mesmo que me vedes fazer. 49Cortando pois à porfia ramos de árvores, seguiram o seu general. E cercando a fortaleza, lhe puseram fogo, e por êste modo aconteceu que por causa do fumo e do fogo morreram mil pessoas, tanto homens como mulheres. que habitavam na tôrre de Siquem. 50Partindo dali, Abimelec veio à cidade de Tebes, à qual bloqueando sitiou com o seu exército. 51Havia no meio da cidade uma alta tôrre. para onde se tinham refugiado tanto homens como mulheres, e tôdas as pessoas principais da cidade, fechada a porta com tôda a segurança, e estando sôbre o telhado da tôrre para se defender. 52E. h Abimelec chegando-se ao pé da tôrre, combatia fortemente: e aproximando-se à porta intentava meter-lhe fogo por baixo: 53Eis que pois uma mulher lançando de cima o pedaço duma mó, feriu a Abimelec na cabeça, e lhe quebrou o cérebro. 54No mesmo ponto chamou êle ao seu escudeiro. e lhe disse: Desembainha a tua espada, e mata-me: Porque se não diga, que fui morto por uma mulher. E cumprindo êste as ordens, o matou. 55E morto Abimelec, todos os filhos de Israel, que com êle estavam, se voltaram para suas casas: 56E assim deu Deus o pago a Abimelec pelo mal que tinha feito a seu pai tirando a vida a setenta irmãos seus: 57E assim também pagaram os siquemitas o mal que fizeram, e veio sôbre eles a maldição de Joatão filho de Jerobaal.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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