Marcos 14
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Faltavam pois dois dias para chegar a Páscoa, em que se começava a comer os pães asmos: E os: príncipes dos sacerdotes, e os escribas andavam buscando modo. como prenderiam por traição à Jesus, para o matarem. 2Mas êles diziam: Não convém que isto se faça no “dia da festa, por não suceder que no povo se excite algum motim. 3E estando Jesus em Betânia, em casa de Simão o leproso,.e sentado à mesa: Chegou uma mulher que trá-zia uma redoma de alabastro cheia de' precioso bálsamo feito de espigas de nardo, e quebrada a redoma, lho derramou sôbre a sua cabeça: 4E alguns dos que estavam presentes indignaram-se lá entre si do que viam e disseram: Para que foi êste desperdício de bálsamo? 5Pois podia êle vender-se por mais de trezentos dinheiros, e dar-se êste produto aos pobres. E murmuravam fortemente contra ela. 6Mas Jesus lhes disse: Deixai-a; por que a moles-tais? ela fêz-me uma boa obra. 7Porque vós sempre tendes convosco os pobres: Para que quando lhes queirais fazer bem, lho possais fazer: Porém a mim não me tendes sempre. 8Ela fêz o que cabia nas suas fôrças: Foi isto em balsamar-me antecipadamente o corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo: Onde quer que for pregado êste Evangelho, que será em todo o mundo, será também contado para sua memória, o que esta obrou. 10Então se retirou Judas Iscariotes, que era um dos doze, a buscar os príncipes dos sacerdotes, pará lhes entregar a Jesus. 11Eles ouvindo isto se: alegraram, e prometeram dar-lhe dinheiro. E buscava Judas ocasião oportuna para o entregar. 12E no primeiro dia em que se comiam os pães asmos, quando se imolava o Cordeiro Pascal, disseram-lhe seus discípulos: Onde queres tu que nós vamos preparar-te o que é necessário para comeres a Páscoa? 13Enviou êle pois a dois de seus discípulos, e disse-lhes Ide à cidade, e lá vos sairá ao encontro um homem que levará uma bilha de água; ide atrás dêle: 14E onde quer que êle entrar: Dizei ao dono da casa que o Mestre diz: Onde é o aposento em que eu poderei comer a Páscoa com meus discípulos? 15E êle vos mostrará um cenáculo, todo mobilado, e preparai-nos lá o que é necessário. 16E partiram seus discípulos, e chegaram à cidade, e acharam tudo como êle lhes havia dito, e prepararam a Páscoa. 17E chegada a tarde, foi Jesus com os doze. 18E quando êles estavam à mesa e ceavam, disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo, que um de vós que comigo come, me há de entregar. 19Então se começaram eles a entristecer. e cada um de per si lhe perguntava: Sou eu? 20Respondeu-lhes Jesus: E” um dos doze que mete comigo a mão no prato. 21E quanto ao Filho do homem, êle vai segundo o que dêle está escrito: Mas ai daquêle homem, por mêeio do qual será entregue o Filho do homem: Melhor lhe fôra, se êsse homem não houvera nascido, 22E quando êles estavam comendo, tomou Jesus o pão, e depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, e disse: Tomai, êste é o meu Corpo. 23E tendo tomado o cálice. depois que deu graças, lho deu: E todos beberam dêle. 24E Jesus lhes disse: Êste é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos. 25Em verdade vos digo, que eu não beberei jamais dêste fruto da vide até chegar aquêle dia em que o beba de novo no reino de Deus. 26E depois de cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. 27Então lhes disse Jesus: A todos vós serei eu esta noite uma ocasião de escândalo: Pois está escrito: Eu ferirei o pastor, e as ovelhas sc porão em desarranjo. 28Mas depois que eu ressurgir, ir-vos-ei esperar em Galiléia. 29Disse-lhe então Pedro: Ainda quando todos se escandalizarem a teu respeito, eu contudo me não hei de escandalizar. 30E Jesus lhe respondeu: Enr verdade te digo, que hoje, nesta mesma noite; antes que o galo cante a segunda vez, me has de tu negar três vezes. 31Mas Pedro, insistindo no mesmo, acrescentava: Ainda no caso de eu me ver precisado a morrer contigo, não te hei eu de negar. E o mesmo disseram também todos os mais. 32Vieram depois para uma herdade chamada Getsêmane. Então Jesus disse a. seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu oro. 33E levou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João: E começou a ter pavor, e angustiar-se em extremo. 34Então lhes disse: A minha alma se acha numa tristeza mortal: Detende-vos aqui, e vigiai. 35E tendo-se adiantado alguns passos, prostrou-se em terra: E orava que, se era possível, passasse dele aquela hora: 36E disse: Abba, Pai, tôdas as coisas te são possi-veis; traspassa de mim êste cálice, porém não se faça o que eu quero senão o que tu queres. 37Depois veio, e achou-os dormindo. Então disse a Pedro: Simão, dormes? não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação. O espirito na verdade está pronto, mas a carne é fraca. 39E foi outra vez a orar, dizendo as mesmas palavras. 40E tornando a vir, achou-os outra vez dormindo, (porque tinham carregados os olhos) e não sabiam que lhe respondessem. 41E veio terceira vez, e disse-lhes: Dormi agora, e descansai. Basta: E” chegada a hora: Eis aqui vai o Filho do homem a ser entregue em mãos de pecadores. 42Levantai-vos, vamos: Eis aí vem chegando quem me há de entregar. 43Ainda bem Jesus não tinha acabado de falar, quando chega Judas Iscariotes, um dos doze, e com êle uma grande tropa de gente armada de espadas e de varapaus, da parte dos príncipes - dos sacerdotes, e dos escribas, e dos: anciãos. 44Ora, o traidor tinha-lhes: dadoruma senha, dizendo: Aquele a quem eu der um ósculo, esse é que é, prendei-o e levai-o com cuidado. 45E tanto que chegou, indo logo ter com Jesus, lhe disse: Deus te salve, Mestre: E deu-lhe um ósculo. 46Então êles lhe lançaram as mãos, e o prenderam. 47E úm certo dos circunstantes, tirando da espada, feriu a um servo do sumo sacerdote, e lhe cortou uma orelha. 48E respondendo Jesus lhes disse: Como se eu fôra algum ladrão viestes com espadas, e varapaus a prender-me? 49Todos os dias estava eu convosco ensinando no templo e não me prendestes. Mas isto acontece para que que se cumpram as Escrituras. 50Então desamparando-o os seus discípulos, fugiram todos. 51Ta-o, porém, seguindo um mancebo, coberto com um lençol sôbre.o corpo nu: E o prenderam. 52Mas êle, largando o lençol, lhes escapou nu. 53L levaram Jesus à casa do sumo sacerdote. E se ajuntaram todos os sacerdotes, e os escribas, e os anciãos. 54Mas Pedro o foi seguindo de longe até dentro do pátio do sumo sacerdote: E estava assentado ao fogo com os oficiais, e ali se aquentava. 55E os príncipes dos sacerdotes, e todo o conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para o fazerem morrer, e não o achavam. 56Porque muitos, sim, depunham falsamente contra êle: Mas não concordavam os seus depoimentos. 57E levantando-se uns, atestavam falsamente contra êle, dizendo: 58Nós outros lhe ouvimos dizer: Eu destruirei êste templo, obra de mãos, e em três dias edificarei outro, que não será obra de mãos. 59Mas esta sua mesma deposição não era coerente. 60Então levantando-se no meio do conselho o sumo sacerdote, perguntou a Jesus, dizendo: Não respondes alguma coisa ao que estes atestam contra ti? 61Mas êle estava em silêncio, e nada respondeu. Tornou a perguntar-lhe o sumo sacerdote, e lhe disse: E's tu o Cristo, Filho de Deus bendito? 62é Jesus lhe disse: Eu o sou: E vós vereis o Fi-: ho do homem assentado à destra do poder de Deus, e vir sobre as nuvens do Céu. 63Então o sumo sacerdote, rasgando as suas vestiduras, disse: Para que desejamos nós ainda mais teste-'. munhas? 64Vós acabais de ouvir a blasfêmia: Que vos parece? À sentença que todos eles deram foi que era réu de morte. 65Então começaram alguns a cuspir nele e a tepar-lhe o rosto, e a dar-lhe punhadas, e a dizer-lhe: Adivinha: É os oficiais lhe davam bofetadas. 66IE estando Pedro em baixo no páteo, chegou uma. das criadas elo sumo sacerdote: 67E quando viu a Pedro, que se aquentava, enca-rando nele, disse-lhe: Tu também estavas com Jesus. Nazareno. 68Mas êle o negou, dizendo: Nem o conheço, nem sei o que dizes. E saiu fora onde era a entrada do páteo, e neste tempo cantou o galo. 69E tendo-o visto outra vez a criada, começou a dizer aos que estavam presentes: Este é lá daqueles. 70Mas êle o negou segunda vez. E pouco depois ainda os que ali estavam, diziam a Pedro: Verdadeiramente tu és daqueles; porque és também galileu. 71E êle começou a praguejar-se, e a jurar: Não conheço êsse homem de quem falais. 72E no mesmo ponto cailtou o galo a segunda vez. E então se lembrou Pedro da palavra que. Jesus lhe havis dito: Antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes. E começou a chorar.