Daniel 4
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Eu, Nabucodonosor, estava sossegado em minha casa, e florescente no meu palácio. 2Tive um sonho, que me atemorizou: E estando na minha cama, os meus pensamentos, e as visões da minha cabeça me deixaram todo assustado. 3Por esta causa publiquei eu um decreto pelo qual mandava que viessem à minha presença todos os sábios de Babilônia, e isto a fim de me darem a explicação do meu sonho. 4Então vieram à minha presença os adivinhos, os mágicos, os caldeus, e os agoureiros e eu contei o meu sonho na sua presença: Mas êles me não deram a sua solução: 5Até que chegou à minha presença o colega Daniel, que tem por nome Baltasar segundo o nome do meu Deus, o qual Daniel tem em si mesmo o espirito dos Deuses Santos: E diante dêle expus assim o meu sonho. 6Baltasar, príncipe dos adivinhos, como eu sei que tu tens em ti o espirito dos Deuses Santos, e que não há segrêdo que tu não possas deslindar: Expõe-me as visões dos meus sonhos que tive, e dá-me a explicação delas. 7A visão da minha cabeça, estando eu na minha cama, é esta: Parecia-me que via no meio da terra uma árvore, e era a sua altura desmarcada. 8Era uma árvore grande e forte: E cuja altura chegava até ao céu: A sua vista se estendia até às extremidades de tôda a terra. 9As suas fôlhas eram formosissimas, e o seu fruto copioso em extremo: E dela se podiam sustentar tôdas as castas de animais domésticos e selvagens, que habitavam debaixo dela, e as aves do céu pousavam sôbre os seus ramos: E dela se sustentava tôda a carne. 10Eu estava vendo isto na visão da minha cabeça sôbre o meu leito, e eis-que o Vigia e o Santo desceu do Céu. 11Êle clamou com uma voz forte, e disse assim: Deitai abaixo pelo pé esta árvore, e cortai-lhe os ramos: Fazei-lhe cair as fôlhas, e desperdiçai-lhe os pomos: Afu-gentem-se as alimárias, que estão debaixo dela, e enxo-tem-se as aves de cima dos seus ramos. 12Deixai todavia na terra o tronco com as suas raízes, e êle fique ligado com umas cadeias de ferro e de bronze entre as ervas que estão fora no campo, e seja molhado do orvalho do céu, e a sua sorte seja com as feras na erva da terra. 13Mude-se-lhe o seu coração de homem, e dê-se-lhe um coração de fera: E passem sete tempos por cima dele. 14Por sentença dos Vigias foi assim decretado, e esta a palavra e a petição dos Santos: Até que conheçam os viventes, que o Excelso é o que tem a dominação sôbre os reinos dos homens, e dá-los-á a quem quiser, e porá nêle ao mais abatido dos homens. 15Êste é o sonho que eu, rei Nabucodonosor, vi: Tu pois, Baltasar, dá-te pressa a mo interpretar: Porque nenhum dos sábios do meu reino me pode dizer o que significa: Tu, porém, sim, porque o espírito dos Deuses Santos está em ti. 16Então Daniel, por outro nome Baltasar, começou a pensar consigo mesmo em silêncio quase uma hora: E os pensamentos que lhe vinham o perturbavam. Mas respondendo, o rei lhe disse: Baltasar, não te turbe o sonho, nem a sua interpretação: Baltasar lhe respondeu, e disse: Meu Senhor, o sonho seja contra os que te têm ódio, e a sua interpretação seja contra os teus inimigos. 17A árvore que tu viste alta e robusta, cuja altura chegava até o céu e cuja vista parecia estender-se por tôda a terra: 18E os seus ramos eram formosissimos, e os seus frutos em extremo copiosos, e todos achavam nela de que se sustentar, alimárias do campo habitavam debaixo dela e as aves do céu pousavam sôbre os seus ramos: 19Esta árvore, digo, és tu, ó rei, que tens sido engrandecido, e que te fizeste poderoso: IE cresceu a tua grandeza e chegou até o céu, e o teu poder até os têrmos de tôda a terra. 20E quanto ao ter visto o rei ao Vigia e ao Santo baixar do céu e dizer: Deitai abaixo esta árvore, e cortai-lhe os ramos, deixai todavia na terra o tronco com as suas raízes, e êle fique ligado com umas cadeias de ferro e de bronze entre as ervas que estão fora no campo, e seja molhado do orvalho do céu, e o seu pasto seja com as feras, até se terem passado sete tempos por cima dêle: 21Eis-aqui a interpretação desta sentença do Altis-simo, que foi pronunciada contra o rei meu senhor: 22Lançar-te-ão fora da companhia dos homens, e a tua habitação será com as alimárias e feras, e comerás feno como o boi, e serás molhado do orvalho do céu: Passar-se-ão também sete tempos por cima de ti, até que tu reconheças que o Excelso tem debaixo da sua dominação os reinos dos homens e os dá a quem lhe apraz. 23Quanto porém ao que mandou, que se conservasse o gérmen das suas raízes, isto é, da árvore: Quer dizer, que o teu reino se ficará conservando para se te tornar a dar depois que tu tiveres reconhecido, que todo o poder vem do céu. 24Portanto segue, ó rei, o conselho que te dou, e resgata os teus pecados com esmolas, e as tuas iniquidades com obras de misericórdia para com os pobres: Talvez que o Senhor te perdoe os teus delitos. 25Tôdas estas coisas vieram sôbre o rei Nabucodonosor. 26Depois, ao cabo de doze meses, passeava êle no palácio de Babilônia. 27E respondeu o rei e disse: Não é esta aquela grande Babilônia, que eu edifiquei para córte do meu reino, com a fôrça do meu poder, e com a glória da minha majestade? 28E como não tivesse o rei acabado ainda de proferir estas palavras, veio do céu retinindo esta voz: Isto é o que a ti, ó rei Nabucodonosor, se intima: O teu reino passará de ti a outro possuidor. 29E lançar-te-ão da companhia dos homens, e a tua habitação será com as alimárias e ícras: Comerás feno como boi, e sete tempos passarão por cima de ti, até que reconheças que o Excelso tem um poder absoluto sôbre os reinos dos homens, e que os dá a quem lhe apraz. 30Na mesma hora se cumpriu esta palavra na pessoa de Nabucodonosor, e êle foi lançado da companhia dos homens, e comeu feno como o boi e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu: De sorte que lhe cresceram os cabelos e o pêlo, como as plumas das águias, e as suas unhas se fizeram como as garras das aves. 31Portanto depois que se cumpriu o tempo, levantei eu, Nabucodonosor, os meus olhos ao céu, e tornou-me a vir o sentido: e eu bendisse ao Altíssimo e louvei, e glorifiquei ao que vive eternamente: Porque o seu poder é um poder eterno, e o seu reino se estende de geração em geração. 32E todos os habitantes da terra são reputados diante dêle como um nada: Porque êle faz tudo o que quer, tanto nas virtudes do céu, como nos habitadores da terra: E não há quem resista à sua mão, e lhe diga:Por que fizeste tu assim? 33Ao mesmo tempo me tornou a vir o meu juízo, e eu recobrei o esplendor, e tôda a glória do meu reino: E foi-me restituída a minha primeira figura, e os grandes da minha córte, e os meus magistrados me vieram buscar. e fui restabelecido no meu reino: E fiquei sendo maior do que nunca. 34Agora pois, eu Nabucodonosor louvo, e engran-deço, e glorifico ao rei do céu: Porque tôdas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos cheios de justiça, e êle pode humilhar os que andam na soberba. CAP!TULO s