Daniel 6
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Foi do agrado de Dario, e por êste seu beneplácito constituiu cento e vinte sátrapas com intendência sôbre o público expediente, para que governassem em todo o seu reino. 2Porém pôs por cima dêles a três príncipes, dos quais Daniel era um: A fim de que êstes sátrapas lhes dessem conta dos negócios, e o rei não padecesse moléstia. 3Daniel pois se avantajava a todos os príncipes e sátrapas: Porque era nele mais abundante o espirito de Deus. 4Ora o rei cuidava em o estabelecer sôbre todo o reino: Motivo por que os príncipes, e os sátrapas buscavam ocasião de o acusar em coisa que tocasse com o rei: Mas não puderam achar pretexto algum, ou razão por onde o fizessem suspeito, porque êle era fiel, e não se achava nêle culpa alguma, nem suspeita dela. 5Disseram pois aquêles homens entre si: Nós não acharemos ocasião alguma de acusar a êste Daniel, se não talvez pelo que diz respeito à lei do seu Deus. 6Então os príncipes, e os sátrapas surpreenderam o rei, e lhe falaram assim: O” rei Dario, vive eternamente; 7Todos os príncipes do teu reino, os magistrados. e os sátrapas, os senadores, e os juízes, são de parecer que se promulguce um decreto imperial, e um edito ordenando: Que todo o homem, que por espaço de trinta dias pedir o que quer que fôr. a qualquer deus, ou a qualquer homem que não fôres tu, ó rei, que seja lançado no lago dos leões. 8Agora pois, ó rei, confirma esta sentença, e passa este decreto: Para que se não altere o que se acha estabelecido pelos medos, e pelos persas, sem que seja permitido a ninguém violá-lo. 9O rei Dario pois fêz publicar êste edito, e assim o mandou. 10O que tendo sabido Daniel: Isto é, que se fizera esta lei, entrou na sua casa: E abrindo as janelas da sua câmara que ficavam contra Jerusalém, cada dia em três diferentes horas se punha de joelhos, e adorava o seu Deus, e lhe rendia ações de graças, como também antes costumava fazer. 11Nestes têrmos aquêles homens, espiando-o com o maior cuidado, acharam a Daniel orando, e fazendo rogativas ao seu Deus. 12E chegando-se êles ao rei lhe falaram acêrca do edito, dizendo: Ó rei, não ordenaste tu que, durante o espaço de trinta dias, todo o homem, que fizesse oração a qualquer dos deuses, ou dos homens, que não fôsses tu, ó rei, fôsse lançado no lago dos leões? O rei, respondendo-lhes, disse: O que vós dizeis é verdade, conforme a ordem dos medos, e dos persas, que a ninguém é permitido violar. 13Então respondendo êles disseram diante do rei: Pois Daniel, um dos cativos dentre os filhos de Judá, não se lhe deu da tua lei, nem do edito, que promulgaste: Antes cada dia em três horas diferentes êle se põe a orar fazendo as suas rogativas. 14Tendo ouvido o rei estas palavras, ficou bastan-temente entristecido: E a favor de Daniel propôs dentro no seu coração livrá-lo, e até ao pôr do sol trabalhou pela salvar. 15Mas aquêles homens, reconhecendo a tenção do rei, lhe disseram: Sabe, ó rei, que é uma lei dos medos, e dos persas, que todo o decreto que o rei passar, não é permitido mudar nada dêle. 16Então passou o rei as ordens: E êles trouxeram a Daniel, e o deitaram no lago dos leões. E o rei disse a Daniel: O teu Deus, que incessantemente adoras, êle te livrará. 17Ao mesmo tempo trouxeram uma pedra, e a puseram sôbre a bôca do lago: À qual o rei selou com o seu anel, e com o anel dos grandes da sua córte, para que se não fizesse coisa alguma contra Daniel. 18E o rei se foi para o seu palácio, e se meteu na cama sem ter ccado, e não se lhe puseram diante manjares alguns, até de mais a mais fugiu dele o sono. 19Ao outro dia, levantando-se o rei logo ao romper da manhã, com grande pressa foi ao lago dos leões: 20E apropinquando-se ao lago, chamou por Daniel com uma voz lacrimosa, e lhe disse: Daniel: servo do Deus vivente, dar-se-ia caso que o teu Deus, a quem tu incessantemente serves, te pudesse livrar dos leões? 21E Daniel respondendo ao rei disse: O” rei, vive eternamente: 22O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou as bó-cas aos leões, e eles me não fizeram mal algum: Porque foi achada em mim justiça diante dele: Como também eu diante de ti, ó rei, não cometi delito algum. 23Então ficou o rei sobremaneira cheio de prazer a sei: respeito, e mandou que Daniel fôsse tirado do lago: E Daniel foi tirado do lago, e nêle se não achou lesão al-gumia, porque êle creu no seu Deus. 24E por mandado do rei foram trazidos aquêles homens, que tinham acusado a Daniel: E foram lançados no lago dos leões, êles, e seus filhos, e as suas mulheres: E não tinham bem chegado ao pavimento do lago, quando os leões os apanharam entre os dentes, e lhes fizeram em migalhas todos os ossos. 25Então o rei Dario escreveu a todos os povos, a tôdas as tribos, e nações de qualquer língua, que habitavam em tôda a terra: A paz se multiplique entre vós. 26Eu tenho passado um decreto, para que em todo o meu império e reino adorem os homens com tremor e temor ao Deus de Daniel. Porque êle mesmo é o Deus vivente, e eterno por todos os séculos: E o seu reino não será dissipado, e o seu poder passará até à eternidade. 27Êle é que é o libertador e o salvador, que faz prodígios e maravilhas no céu e na terra: Êle o que livrou Daniel do lago dos leões. 28Ora Daniel perseverou sempre em dignidade até o reinado de Dario, e o reinado de Ciro persa.