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Gênesis 27

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Isaac estava velho, e a sua vista se tinha de tal sorte enfraquecido, que êle não podia ver nada. Chamou pois a Esaú seu filho primogênito, e disse-lhe: Meu filho. Esaú lhe respondeu: Eis-aqui me tens. 2Ajuntou Isaac: Tu bem vês que estou velho, e que ignoro o dia da minha morte. 3Toma as tuas armas, a tua aljava, e o teu arco, e sai ao monte; e depois que tiveres apanhado alguma, coisa de caça, 4faze-me preparar dela, um pratinho como tu sabes que eu gosto, e traze-mo para eu comer dêle, e para eu te abençoar antes que morra. 5Ouviu Rebeca esta prática; e depois que Esaú foi para a caça, a satisfazer o desejo de seu pai, 6disse ela a seu filho Jacó: Eu ouvi estar falando teu pai Isaac com teu irmão Esaú, e dizer-lhe: 7Traze-me alguma coisa do que tiveres apanhado à caça; e faze-me preparar dela um pratinho para eu comer, e para eu te abençoar na presença do Senhor antes da minha morte. 8Agora pois, filho meu segue o conselho, que te vou dizer. 9Vai ao rebanho, e traze-me dois cabritos dos melhores, para eu preparar dêles a teu pai uma iguaria, de que eu sei que êle gosta; 10e para que depois que tu lha tiveres apresentado, e que êle tiver comido dela, te dê a sua bênção antes que morra. 11Jacó lhe respondeu: Tu sabes que meu irmão Esaú tem o corpo cheio de pêlo, e que eu sou todo liso. 12Se meu pai me fôr a tocar com a mão, e me apalpar, temo não cuide que eu o quis enganar, e não chame eu para mim a sua maldição, em vez da sua bênção. 13Rebeca lhe replicou: Sôbre mim caia essa maldição, meu filho. O ponto está que tu me ouças, e que vás buscar-me o que eu te disse. 14Foi êle, trouxe-o e deu-o a sua mãe, a qual preparou disso uma iguaria para Isaac, como ela sabia que êle gostava. 15Depois vestiu a Jacó dos mais preciosos vestidos de Esaú, os quais ela tinha em seu poder: 16E cobriu-lhe as mãos, e o pescoço com as peles dos cabritos. 17Depois deu-lhe a iguaria, que tinha preparado, e os pães, que tinha cozido. 18O que tudo pôsto diante ao pai, disse Jacó. Meu pai. Bem te ouço, respondeu Isaac. Quem és tu, meu filho? 19Respondeu Jacó: Eu sou Esaú teu primogênito: Fiz o que me ordenaste. Levanta-te, assenta-te, e come da minha caça, para me deitares a tua bênção. 20Disse Isaac a seu filho: Como pudeste tu, meu filho, encontrar tão depressa o que eu pedia? Respondeu êle: Quis Deus que me aparecesse logo o que eu buscava. 21Continuou: Chega-te a mim, meu filho, para eu te tocar, e para me certificar se tu és meu filho Esaú, ou não. 22Chegou-se Jacó a seu pai; e tendo-o apalpado Isaac com a mão, disse: Quanto à voz, ela é a voz de Jacó; porém as mãos são as mãos de Esaú. 23E êle o não conheceu; porque como as suas estavam cobertas de pêlo, pareceram-lhe tôdas semelhantes às do mais velho. Isaac pois dando-lhe a sua bênção, lhe disse: 24E’s tu meu filho Esaú? Eu o sou, respondeu Jacó. 25Prosseguiu Isaac: Dá-me cá da tua caça, para eu te abençoar. Apresentou-lhe Jacó de comer; e depois que comeu, deu-lhe também vinho, o qual bebido, 26disse-lhe Isaac: Chega-te a mim, meu filho, e dá-me um beijo. 27Chegou-se Jacó, e beijou-o: E no mesmo ponto, tendo Isaac sentido o bom cheiro dos seus vestidos, o abençoou, e lhe disse: Eis-aqui o cheiro de meu filho, que é como o cheiro de um campo bem cheio, ao qual o Senhor abençoou. 28Deus te dê do orvalho do céu e da gordura da terra, abundância de pão, e de vinho. 29Os povos te estejam sujeitos, e êles se prostrem diante de ti: Tu sejas o Senhor de teus irmãos; e os filhos de tua mãe se inclinem profundamente na tua presença. Aquêle, que te amaldiçoar, êsse seja amaldi-diçoado, e aquêle, que te bem disser, seja cheio de bênçãos. 30Apenas Isaac tinha acabado de dizer estas palavras, e Jacó saído para fora, quando chegou Esaú: 31Que tendo apresentado a seu pai o que fizera cozer da sua caça, lhe disse: Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho, para tu me dares a tua bênção. 32Disse-lhe Isaac: Pois quem és tu? Esaú lhe respondeu: Eu sou teu filho primogênito. 33Isaac todo sobressaltado, e cheio duma admiração maior, do que quanto se pode crer, lhe disse: Quem é logo aquêle, que me trouxe já do que tinha apanhado à caça? Eu comi de tudo o que êle me apresentou antes de tu chegares; e eu lhe dei a minha bênção, e êle será bendito. 34Esaú ouvidas estas palavras do pai, rompeu nuns grandes bramidos como de um leão que ruge; e todo consternado, disse: Dá-me também a mim a tua bênção, meu pai. 35Isaac lhe respondeu: Teu irmão me veio surpreender, e êle recebeu a bênção, que era para ti. 36Prosseguiu Esaú: Com razão lhe foi pôsto a êle o nome de Jacó; porque esta é a segunda vez, que êle me suplantou. Êle me levou o meu direito de primogenitura; e eis agora veio êle ainda roubar-me a bênção, que me era devida. E tornando a falar com o pai: E tu, lhe disse êle, não reservaste também para mim alguma bênção? 37Respondeu-lhe Isaac: Eu o constitui a êle teu senhor; sujeitei-lhe todos os seus irmãos; dei-lhe para sustento pão, e vinho: e depois disto, meu filho, que te posso eu fazer? 38Replicou Esaú: Logo tu não tens senão uma bênção? Eu te conjuro, que me abençoes também a mim. E como êle chorava, dando grandes gritos, 39Isaac movido de compaixão, lhe disse: A tua bênção será na gordura da terra, e no orvalho do céu, que cai lá do alto. 40Tu viverás da tua espada, e serás sujeito a teu irmão: e lá virá tempo, que tu sacudas o seu jugo da tua cerviz, e te livres dêle. 41Conservou pois Esaú sempre um rancor contra Jacó por causa desta bênção, que êle recebera de seu pai; e o mesmo Esaú dizia no seu coração: Lá virá o tempo do nojo pela morte de meu pai: e então eu me desfarei de Jacó meu irmão. 42Como estas coisas fôssem contadas a Rebeca, mandou ela chamar a seu filho Jacó e lhe disse: Sabe que teu irmão Esaú te ameaça, que te há de matar. 43Pelo que, meu filho, crê-me, retira-te logo para meu irmão Labão, que assiste em Haran. 44Deixa-te lá estar alguns dias, até que se aplaque a ira de teu irmão, 45e a sua indignação passe, e êle se esqueça do mal, que tu lhe fizeste. Pois por que serei eu privada de ambos os meus filhos num dia? 46Depois disse Rebeca a Isaac: Eu estou aborrecida da minha vida, por causa das filhas de Het. Se Jacó tomar para mulher alguma das filhas dêste país, não quero mais viver.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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