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Lamentações 3

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Aleph. Homem sou eu que vejo a minha pobreza debaixo da vara da sua indignação. 2Conduziu-me, e levou-me às trevas, e não à luz. 3Não fêz senão virar e revirar contra mim a sua mão todo o dia. 4Beth. Fêz envelhecer a minha pele, e a minha carne, quebrantou os meus ossos. 5Edificou ao redor de mim, e me cercou de fel, e de trabalho. 6Pôs-me em lugares tenebrosos, como os que estão. mortos para sempre. 7Ghimel. Edificou à roda contra mim, pára que eu não saia: Agravou os meus grilhões. 8E ainda quando eu clamar, e rogar, êle excluiu a minha oração. 9Fechou os meus caminhos com pedras de silharia, soverteu as minhas veredas. 10Daleth. Fêz-se-me como urso de emboscada: Um leão em esconderijo. 11Soverteu as minhas veredas, e quebrantou-me: Pôs-me em desolação. 12Armou o seu arco, e me pôs como alvo à seta. 13He. Meteu nos meus rins as setas da sua aljava. rIE 14Estou feito um objeto de escárnio para todo o meu povo, O assunto da sua cantilena todo o dia. 15Encheu-me de amargura, embriagou-me de absíntio. 16Vau. E quebrou os meus dentes a um e um, deu-me a comer cinza. 17E está desterrada da minha alma a paz, perdi a memória de todo o bem. 18E eu disse: Pereceu o meu fim, e a esperança que eu tinha no Senhor. 19Zain. Lembra-te da minha pobreza, e do excesso dela, do absíntio, e do fel. 20Eu me lembrarei muito bem disto, e a minha alma 'se definhará dentro de mim. 21Por eu recordar estas coisas no meu coração, por isso esperarei. 22Heth. Misericórdias são do Senhor o não têrmos sido consumidos: Porque as suas comiserações nunca faltaram. 23Elas se renovam cada manhã, grande é a tua fidelidade. 24A minha porção é o Senhor, disse a minha alma: Portanto eu o esperarei a êle. 25Teth. Bom é o Senhor para os que nêle esperam, para a alma que o busca. 26Boa coisa é esperar em silêncio a salvação de Deus. 27Bom é para o varão o ter levado o jugo desde a sua mocidade. 28Jod. Assentar-se-á solitário, e ficará em silêncio: Porque levou êste jugo sôbre si. 29Porá a sua bôca no pó, a ver se acaso há esperança. 30Oferecerá a face ao que o ferir, fartar-se-á de opróbrios. 31Caph. Porque o Senhor não nos rejeitará para sempre. 32Porque se êle nos rejeitou, êle também se compadecerá, segundo a multidão das suas misericórdias. 33Porque êle não humilhou, nem rejeitou por seu gôsto os filhos dos homens. 34Lamed. Para pisar aos seus pés todos os cativos da terra. 35Para desviar o juízo do varão ante a presença do Altíssimo. 36Para perverter ao homem no seu juízo, o Senhor nunca tal soube fazer. 37Mem. Quem é o que disse, que se fizesse uma coisa, sem que o Senhor mandasse? 38Não sairão da bôca do Altíssimo nem os males, mem os bens? 39Por que murmurou sempre o homem vivendo, o varão pelo castigo de seus pecados? 40Nun. Esquadrinhemos os nossos caminhos, e investi-guemo-los, e voltemos ao Senhor. 41Levantemos ao Senhor os nossos corações com as mãos para os céus. 42Nós obramos injustamente, e te provocamos a ira: Por isso tu te mostras inexorável. 43Samech. Tu te encobriste no teu furor e nos feriste: Mataste-nos, e não nos perdoaste. 44Tens pôsto uma nuvem diante de ti, para que a nossa oração não passe. 45Como planta desarraigada, e abjeta me puseste no meio dos povos. 46Ain. Todos os inimigos abriram contra nós a sua bôca. 47A profecia veio a ser o nosso mêdo e o nosso laço, e a nossa ruína. 48O meu ôlho derramou rios de lágrimas, vendo o quebrantamento da filha do meu povo. 49Phe. O meu ôlho se afligiu, e não se calou, porque não havia descanso. 50Até que olhasse e visse o Senhor desde os céus. 51O meu ôlho quase me roubou a vida, chorando sôbre tôdas as filhas da minha cidade. 52Sade. Como ave na caça me prenderam os meus inimigos sem causa. 53A minha alma caiu no lago, e êles puseram sôbre mim uma pedra. 54Um dilúvio de águas veio sôbre a minha cabeça: Eu disse: Pereci. 55Coph. Invoquei, Senhor, o teu nome desde o profundo do lago. 56Tu ouviste a minha voz: Não apartes o teu ouvido dos meus soluços, e dos meus clamores. 57Tu te chegaste no dia em que eu te invoquei: Disseste: Não temas. 58Res. Tu, Senhor, julgaste a causa da minha alma, Redentor da minha vida. 59Viste, Senhor, a iniqüidade dêles contra: mim, julga tu a minha causa. 60Viste todo o seu furor, todos os pensamentos dêles contra mim. 61Sin. Ouviste, Senhor, os vitupérios que me dizem, todos os desígnios que êles formam contra mim. 62As palavras daqueles que me fazem guerra: E que maquinam contra mim todo o dia. 63Observa-os a êles ao assentarem-se, e ao levantarem-se: Eu sou a sua canção. 64Thau. Tu, Senhor, lhes darás o pago, como merecem as obras das suas mãos. 65Dar-lhes-ás por escudo do seu coração o trabalho que lhes hás de enviar. 66Tu os perseguirás no teu furor, e tu os farás em pó, Senhor, debaixo dos céus.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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