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Sabedoria 14

Pe. Antônio Pereira de Figueiredo

1Outro da mesma sorte, fazendo tenção de se meter ao mar, e começando a dar à vela sôbre as feras ondas, invoca a um madeiro mais frágil, do que o lenho que o leva. 2Porque a cobiça de adquirir o inventou, e o artífice pela sua habilidade o fabricou. 3Mas a tua providência, ó pai, é a que o governa: Porque tu até no mar abriste caminho, e uma derrota segurissima por entre as ondas, 4mostrando que és poderoso para salvar de todos os perigos, ainda que alguém se meta no mar sem arte. 5Mas para que as obras da tua sabedoria não fôssem vãs: Por esta causa também os homens confiam até de um pequeno lenho as suas vidas, e passando o mar' se têm salvado por meio de uma embarcação: 6Mas até do princípio, quando pereceram os soberbos gigantes, acolhendo-se a esperança de tôda a terra a um vaso que era governado por tua mão, êste conservou ao Mundo os fiadores da sua propagação. 7Porque o madeiro, pelo qual se faz justiça, é bendito. 8Mas o ídolo, que é feito por indústria das mãos, tão maldito é êle mesmo, como quem o fêz: Êste porque de fato o fabricou: E aquêle porque, sendo uma coisa frágil, foi chamado Deus. 9E Deus igualmente aborrece ao ímpio, e a sua impiedade. 10Porquanto a obra que foi feita, com aquêle que a fêz padecerá tormento. 11Por esta causa também se não terá respeito aos ídolos das nações: Porque as criaturas de Deus se fizeram um objeto de abominação, e um motivo de tentação para as almas dos homens, e um laço para os pés dos insensatos. 12Porque o primeiro ensaio da formatura dos ídolos foi o princípio da fornicação: E o seu último desco-brimento foi a corrupção da vida: 13Porque nem os havia do princípio, nem os há de haver para sempre. 14Porquanto a vaidade dos homens foi a que os introduziu no Mundo: E por isso em breve se tem de ver o seu fim. 15Penetrado pois um pai de sensível mágoa fêz a imagem de seu filho, que cedo lhe fôra arrebatado: E aquele, que então havia falecido como homem, começa agora a adorar como a Deus, e lhe estabelece entre os seus servos cerimônias e sacrifícios. 16Depois com o andar do tempo autorizando-se o mau costume, foi observado êste êrro como Lei, e por mandado dos tiranos eram adorados os simulacros. 17E quanto àqueles, a que os homens não podiam honrar em presença, por causa de se acharem longe, tendo feito trazer de remontada distância o seu retrato, fizeram manifesta a imagem do Rei, a quem queriam honrar: Para que chegassem com o seu empenho a reve-renciar como se estivera presente aquêle que estava ausente. 18Ora até aos que eram ignorantes fói levando ao culto dêles a primorosa exação do artífice, 19Porque desejando êste encher as medidas ao que lançou mão dêle, se esmerou com a sua arte para representar uma figura o melhor que fôsse possível. 20E o vulgo dos homens arrebatado da formosura da obra, tomou logo por Deus aquêle que até ali fôra honrado como homem. 21E esta foi a ilusão da vida humana: Porquanto os homens, ou por satisfazer ao seu particular afeto, ou por obsequiar aos reis, deram às pedras e ao pau um nome incomunicável. 22E não tinha sido bastante aos homens terem êles errado acêrca do conhecimento de Deus, mas ainda vivendo em grande guerra de ignorância, chamam paz a tantos e tão grandes males. 23Porque ou sacrificando os seus próprios filhos, ou fazendo sacrifícios ocultos, ou celebrando vigílias cheios de fatuidade, 24nem conservam já com pureza a sua vida, nem os seus matrimônios, mas um ao outro mata por inveja, ou o entristece adulterando: 25E todos os crimes se acham de mistura, o sangue, o homicídio, o furto e o engano, a corrupção e a infidelidade, a turbação e o perjúrio, o tumulto dos bons, 26o esquecimento de Deus, a contaminação das almas, a mudança do nascimento, a inconstância dos matrimônios, as desordens do adultério e da impudicícia. 27Porque o culto dos ídolos abomináveis é a causa e o princípio e fim de todo o mal. 28Porque ou fazem desatinos, enquanto se diver-tem: Ou vaticinam por certo falsidades, ou vivem sem justiça, ou juram falso incontinenti. 29Porque enquanto êles confiam nos ídolos, que não têm alma, esperam, fazendo tais perjúrios, não receber detrimento. 30Porém sôbre êles virá o merecido castigo de ambos estes crimes: Porquanto sentiram mal de Deus, res-peitando aos ídolos, e juraram injustamente, desprezando com dolo a justiça. 31Porque não é o poder daquéles, por quem juraram, mas a pena dos que pecam, a que anda sempre no alcance da prevaricação dos injustos.

Texto bíblico da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), em domínio público, conforme a edição de 1950 da Editora das Américas (São Paulo), com Nihil Obstat e Imprimatur, na ortografia daquela edição. Numeração dos versículos segundo a Vulgata. Sem as notas de rodapé.

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