Sabedoria 2
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo
1Disseram pois discorrendo consigo não retamente: Curto é, e com tédio se passa o tempo da nossa vida, e não há refrigério no fim do homem, como também não há quem se haja conhecido, que tornasse a vir dos infernos: 2Porque do nada somos nascidos, e depois disto seremos, como se nunca tivéramos sido: Porque a respiração nos nossos narizes é um fumo: E a fala uma faisca para mover o nosso coração. 3Apagada a qual, será o nosso corpo cinza, e o espirito se dissipará como um ar sutil, e a nossa vida passará como um rasto de nuvem, e se desvanecerá bem como nevoeiro, que é afugentado pelos raios do sol, e oprimido do seu calor: 4E o nosso nome pelo decurso do tempo ficará sepultado no esquecimento, e ninguém terá memória das nossas obras. 5Porque o nosso tempo é uma passagem de sombra, e não há regresso de nosso fim: Porquanto se lhe põe o sêlo, e ninguém torna. 6Vinde pois, e gozemos dos bens que existem, e façamos a tôda a pressa uso da criatura como na mocidade. 7Enchamo-nos de vinho precioso e de perfumes: E não se nos passe a flor do tempo. 8Coroemo-nos de rosas, antes que se murchem: Não haja prado. algum, em que a nossa intemperança não deixe' pegada. 9Nenhum de nós se dispense de tomar parte nos nossos divertimentos: Deixemos em tôda a parte sinais de alegria: Porque esta é a parte que nos toca, e esta é a nossa sorte. 10Oprimamos o justo na sua pobreza, e não per-doemos à viúva, nem respeitemos as cãs do velho de muito tempo. 11E seja a nossa fôrça a lei da justiça: Porque aquilo que é fraco, se reputa por inútil. 12Façamos pois cair o justo nos nossos laços, porquanto nos é inútil, e é contrário às nossas obras, e nos lança em rosto as transgressões da lei, e contra a nossa reputação pública as faltas do nosso procedimento. 13Êle assegura que tem a ciência de Deus, e se chama a si Filho de Deus. 14Tem-se-nos feito censor dos nossos pensamentos. 15Ainda só o vê-lo nos é insuportável: Porque' a sua vida é dissemelhante à dos outros e seus caminhos são bem diferentes. 16Somos avaliados por êle como pessoas vãs, e se abstém dos nossos caminhos como de imundície, e prefere os novissimos dos justos, e se glória de que tem a Deus por pai. 17Vejamos pois se os seus discursos são verdadeiros, e tentemos o que lhe há de vir, e saberemos qual será o seu fim. 18Porque se é verdadeiro Filho de Deus, êle o amparará, e o livrará das mãos dos contrários. 19Façamos-lhe perguntas por meio de ultrajes e tormentos, para que saibamos o seu acatamento, e pro-vemos a sua paciência. 20Condenemo-lo a uma morte mais infame: Porque, segundo as suas palavras, haverá dele consideração. 21Estas coisas pensaram, e nelas erraram: Porque a sua malícia os cegou. 22E não souberam os segrédos de Deus, nem esperaram retribuição de justiça, nem fizeram conceito da honra das almas santas. 23Porquanto Deus criou o homem inexterminável, e o fêz à imagem da sua semelhança. 24Mas por inveja do diabo entrou no mundo a morte: 25E a êle imitam os que são do seu partido.